terça-feira, 17 de junho de 2008

Islândia

Uma das coisas mais divertidas de se fazer é futurologia (como será o mundo quando...?) e futuro-do-preterito-logia (como seria o mundo se...?). Então vamos lá.

A idéia surgiu em mais uma madrugada de conversa fiada no MSN. Estávamos falando sobre como a história nos ensina (é, historia magistra vitae mesmo, falou?!) que grupos extremamente irrelevantes na periferia de grandes impérios e civilizações, justamente por serem irrelevantes e ninguém ligar para eles de início, freqüentemente viram o jogo e passam a ditar as regras no mundo (e um viva à imprevisibilidade dos acontecimentos humanos! \o/). Mongólia, Inglaterra e Japão são três exemplos que dispensam maiores explicações.

Daí, como numa boa conversa fiada de madrugada de MSN, surgiu a pergunta: em que povo irrelevante da atualidade vocês apostam para ser uma grande potência política e/ou cultural no futuro? E a minha aposta: Islândia!

Na verdade não só a Islândia, mas o Mundo Nórdico como um todo. Explico. Desde os saques vikings no século IX, o Mundo Nórdico não tem nenhuma relevância especial para o curso dos acontecimentos mais globais da Europa e, por tabela, do Ocidente (que era e continua sendo, em boa medida, sinônimo para “Europa Estendida”). Nunca exerceram grande influência no resto da Europa, não representaram participação significativa em nenhuma grande guerra européia (talvez um pouco na Segunda Guerra Mundial). No entanto, hoje são os países com o maior IDH do mundo (a gente sempre se surpreende, na escola, quando ouve isso pela primeira vez). Um bom sinal de relativa irrelevância no passado, e de potencial para fazer coisas num futuro não muito distante.

Claro que eu não estou falando em dominação política, que isso nem faz muito mais sentido no mundo de hoje. O Japão, por exemplo, tradicional ilha periférica e insignificante no mar da China, nunca teve nenhuma dominação política externa pronunciada (afora os surtos de grandeza da Segunda Guerra), mas devorou pílulas de ocidente numa velocidade assustadora e hoje domina de forma muito forte o cenário cultural mundial. Como o meu irmão diz: todo desenho animado agora tem traços de Mangá e de Anime. O Japão virou o maior exportador de modinhas orientais para o ocidente.

E desse ponto de vista, o cultural, que eu vejo um futuro interessante para o Mundo Nórdico. Eles têm uma produção artística muito característica (e muito bem financiada), bastante própria e diferente dos padrões ocidentais comuns. Na última Bienal de Arquitetura de São Paulo (a de 2007), me surpreendeu a grande quantidade de mega-projetos dinamarqueses de urbanismo sendo executados em cidades chinesas!

O cenário fica 20 vezes mais favorável se formos pensar na música. Finlândia e Noruega são países claramente destacados em dois tipos de experimentalismos musicais de ponta: o experimentalismo da musica erudita / acadêmica, e a incorporação de elementos eruditos nos cantos épicos do Metal \,,/. Outro tipo de experimentalismo, que me atrai especialmente, é o que é praticado na Islândia. A começar pela Björk, um dos maiores ícones do mundo da musica pop – tornando o experimentalismo musical algo pop o.O – , primeiro arauto do que virá (ela inclusive tem uma agência na islândia para financiar novos artistas talentosos). O último CD dela, Volta, como um cântico da globalização, é bem simbólico.


Os islandeses em geral me passam uma impressão muito forte de que estão falando da cultura ocidental mas ao mesmo tempo estão fora dela (como o Debussy com as escalas cromáticas, em relação à musica tonal). Esse “olhar extraterrestre” sobre nós, me parece, é essencialmente o que faz da música islandesa tão interessante para o ocidente em geral. Tudo isso com uma lírica que é muito, muito característica de toda música que vem daquela ilha. Novamente, a Björk é um ótimo exemplo.

E daí o experimentalismo, a falta de pudor com pegar todos os elementos da cultura ocidental e ficar brincando com eles. Outro exemplo extremamente elucidativo é o da Amiina, grupo de quatro meninas (originalmente um quarteto de cordas) que lançou seu primeiro CD em 2007. Sobre o início do grupo, o site delas diz: “They gathered together every last instrument they could find and piled them into their car”. Depois disso, elas ficam aparecendo em programas de TV tocando serrotes com arco de violoncelo e produzindo harmonias em conjuntos de campainhas de secretária! Com relação ao arco de violoncelo, talvez tenham aprendido com o Sigur Rós, cujo vocalista e guitarrista já o usa quase sempre em sua guitarra.


Já estou começando a ter visões. Björk abriu as primeiras portas e talvez seja lembrada no futuro como uma espécie de matriarca. Sigur Rós e Múm estão despontando como bandas de fama internacional consolidada (com direito a serem usadas constantemente nas trilhas sonoras de reportagens do Fantástico). Amiina, no rastro do SR, são um dos exemplos do que está surgindo agora-agorinha. Quem sabe o que virá pelos próximos dois ou três anos? Logo logo, de forma cada vez mais difundida, a label “musica islandesa” estará associada à música experimental, a uma outra forma bem sucedida de encontro entre o rock e a musica erudita, a um padrão musical bem característico e visto em geral como de alta qualidade. Se o Sigur Rós continuar o trabalho deles na linha atual, isso vai levar a uma divulgação crescente, junto com as músicas, de outras práticas culturais exóticas e dos cenários naturais estonteantes e extraterrestres da Terra do Gelo. O turismo natural, associado ao turismo musical, vão crescer – primeiro dentro da Europa, depois envolvendo Estados Unidos e (quiçá) América Latina. Os pubs de Reykjavik vão começar a encher, todo mundo atraído por ver apresentações dos seus músicos preferidos em seu habitat natural. Reykjavik, como um todo, vai se tornar uma cidade referência em termos musicais. Todo mundo vai falar desse país que, até a década de 50, era não muito mais que um distrito da Dinamarca. O processo, como um todo, só vai ser reforçado pelos atrativos do resto do Mundo Nórdico: a atenção à Islândia atrairá mais atenção para seus vizinhos; a atenção para os atrativos de seus vizinhos aumentará ainda mais a visibilidade da Islândia. =~~~~~~

Os próximos anos ainda têm que ver um dilema ocidente x china na definição do perfil cultural deste mundo globalizado, num primeiro momento. Mas pelo menos no primeiro lado desse dilema, a voz dos homens do gelo tem muito o que acrescentar ao desenho do quadro.

4 comentários:

zipi disse...

China se incorporando ao ocidente?
Tudo bem.
A índia já fez isso, e o japão tbm.
É só o caso do ocidente descobrir a china.

Agora, se vc quer mesmo que a gente acredite nesse papo de Islândia Mundial você tem que dar outros exemplos além do mundo musical.

Malditas, malditas, malditas!
Essas pessoas que acham que a música rege o mundo como um maestro rege o seu miojo!
Morte a MTV, aos emos, grunges, indies, metaleiros, e todos os outros grupos sociais regidos por musicalidade!

Biúnil disse...

Não, não acho que vai ser como o Japão ou a Índia. Nesse caso, a china se ocidentaliza numa medida próxima á que o ocidente se orientaliza (e o japão entra bastante nisso, com todas as coisas chineses q eles têm).

E o ocidente já ta descobrindo a china faz tempo. Alias, as empresas ocidentais tão adorando descobrir a china, no momento, huahuahua

Mas então, a Islândia não tem nada além de música incrível e de paisagens lindas o.O Ah, tem umas baleias que passeiam por lá, e tem umas bebidas interessantes, dizem. Hmmm... Viva os grupos baseados em musicalidade \o/ (não os emos o.O)

Anônimo disse...

alow, gente, é óbvio que o país irrelevante que vai virar potência política e cultural é o Brasil, dã-ãr

Tati disse...

E as estalactites?! E-a-s-e-s-t-a-l-a-c-t-i-t-e-s-?-!