quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Fones

Eu tava reparando como é grande hoje a quantidade de pessoas que viajam de onibus com fones de ouvindo, ouvindo suas próprias musicas, as musicas q tocam suas almas (voce está ouvindo 98,9 FM...). É interessante essa coisa de poder carregar consigo as musicas de q vc gosta. Mais interessante é como as pessoas podem se dar ao luxo de abrir mao de um sentido inteiro, de um canal inteiro de contato com o mundo exterior, e reverter o uso desse canal para permanecer mergulhado no interior de si mesmas, conforme transitam pelo mundo mudo (claro que nao é mudo, que tem muita coisa pra ser ouvida nele, mas na maioria das vezes acaba virando só ruído branco).

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Um mundo, um sonho

Acabou de terminar a Abertura dos Jogos Olímpicos de 2008. To semi-paralisado até agora. É a primeira vez que eu me emociono de verdade com algum evento público.

Sabemos o poder simbólico que as Olimpíadas têm no nosso mundo. Nesses dois séculos tão belicosos, tão competitivos para os países ocidentais (o século XIX que começou com Napoleão, foi atravessado pelas invenção das guerras nacionalistas, e desembocou num século com duas guerras mundiais e uma guerra fria que partiu o mundo em duas fatias), foi uma das melhores idéias enfiar fundo a mão nas raízes comuns do ocidente, e recuperar o maior símbolo de convivência pacífica entre diferentes. O evento que pausou a Guerra do Peloponeso; em que todas as cidades pararam o curso de suas evoluções políticas para ver o Fogo que Prometeu roubou dos deuses sendo aceso, para que cada ser humano não quisesse mostrar nada ali além da sua própria excelência.

As Olimpíadas na sua versão moderna foram uma promessa de paz que nunca se cumpriu. Mas foi também uma promessa de mundo. O Ocidente podia então se enxergar como a Grécia: por mais diferentes que fossem as cidades, estavam ali para celebrar sua herança comum, estando certos de estarem produzindo o melhor do fato de serem humanos. Talvez a unica manifestação de sensatez num mundo em que as nações ocidentais se destruiam mutuamente em nome de mais e mais pedaços do resto do mundo. Eles ocidentalizaram o mundo, de fato, levando a todos seus ideais, sua visão, mas levando também, sem perceber, esse que pode ser chamado de ideal olímpico.

O traumático século XX acabou com a queda do muro que dividia, na capital do centro da europa, as duas metades ocidentais do planeta. As duas olimpíadas seguintes foram organizadas em cidades bem pacíficas e distantes do centro dos acontecimentos, enquanto o resto do mundo terminava de se reconstruir. Em 2004 as Olimpíadas voltaram para o seu berço, como que para repensar o que foi a história do ocidente e do mundo ocidentalizado; uma volta às origens para recomeçar em outra direção. Foi em Atenas, símbolo máximo da tradição que refez o mundo, que os gregos entregaram o Fogo dos Deuses aos chineses, civilização igualmente antiga, mas guardando a promessa do novo.

Foram quatro anos de espera muito ansiosa. Mas atingimos o turning point; a ocidentalização do mundo finalmente acabou. Começamos a globalização efetiva. Desfilando todas as suas maiores conquistas culturais, físicas, intelectuais e tecnológicas, a china finalmente conseguiu do ocidente o respeito que nunca havia tido. Finalmente outra voz se ergue no mundo, num mundo que agora tem muitas vozes, muitas cores. O fogo agora está nas mãos do homem chines, que salta do centro das nações, correndo, tocando o ar com os pés com a leveza típica dos heróis chineses, desenrolando atrás de si o pergaminho que conta a árdua travessia dos últimos anos. Corre naquele Céu, o círculo, que envolve todas as nações, e faz a grande Tocha anunciar: o século XXI começou.

sábado, 2 de agosto de 2008

Emoticons

Os emoticons foram uma das coisas mais incríveis que já inventaram em termos de línguas! Numa época em que a comunicação instantânea e ao vivo, que antes era exclusivamente oral, passa a ser também bastante exercida por escrito, eles surgiram para resolver o que sempre foi apontado como uma das grandes deficiências desta: a impossibilidade de expressar tons de voz, expressões faciais e corporais, e todas essas coisas que usualmente não expressamos por conceitos, quando falamos.

(os emoticons não são conceitos então? o que eles são? talvez isso renda outro post no futuro...)

Fazendo, assim, outro exercício de futurologia, não dou muito tempo pra que eles comecem a ser incorporados à língua escrita (não só em conversas, mas em livros e textos mais longos), e comecem a ser sistematizados, e apareçam finalmente nas gramáticas. Como sistematização é outra coisa com o que eu adoro brincar, vou me adiantar e fazer isto. Gramática dos Emoticons.

Vou começar então supondo que existe uma classe de objetos lingüísticos (como as classes de adjetivos, substantivos, etc.) chamada de "emoticons", cuja função no texto é exprimir emoções e sentimentos que acompanham o texto de forma não-conceitual.

Morfologia

A maioria dos emoticons reproduz, primariamente, expressões faciais - é a origem morfológica de quase todos eles.

No Brasil, vivemos sob dois regimes morfológicos de emoticons.

O primeiro é o regime norte-americano, ou ocidental. Emoticons desse tipo consistem em um sinal de dois pontos (:) (variante: um sinal de igual (=) ) seguido de um caractere qualquer (letras maiúsculas, em boa parte dos casos) que originalmente representava a boca da face.
Exemplos:
:) - :( - :/ - :D - :S - :O - :E - :B - :T - :P
Repare que toda a expressividade dos emoticons ocidentais é carregada na boca; os olhos quase sempre são iguais. A única variação de olhos neles é quando se troca os dois pontos (:) por ponto-e-vírgula (;), adicionando o 'efeito de piscadela' ao emoticom original.

O segundo regime é o regime japonês. Ao contrário do ocidental, nestes é a boca que é inexpressiva (quase sempre inexistente); toda a expressividade é carregada nos olhos. Sua forma é geralmente algum caracter duplicado, representando os olhos dispostos horizontalmente (ou dois simbolos diferentes, quando se trata de um 'olhar assimétrico'), juntos (variantes: separados por um ponto (.) para representar o nariz, ou por um underline (_) para representar a boca).
Exemplos:
¬¬ - ^^ - o.O - u.u - *.* - o_o - T.T - x.x

Há dois emoticons em particular que são frequentemente usados e que não pertencem a nenhuma dessas classes: o de comemoração (\o/) e o de despedida (o/ ou variante \o). Há também quem use uma variante deles para expressar desespero (/o\). São basicamente estes; talvez possamos chamá-los 'emoticons de braço'.


Sintaxe

Emoticons, obviamente, não exercem função sintática em uma frase - a menos que criemos uma função específica para eles. Eles geralmente são escritos no fim de orações (algumas vezes, mais raras, no início delas), e não são separados por nenhuma pontuação específica. Na comunicação instantânea, costumam mesmo exigir a omissão do ponto final, para não gerar cacografia. Podem também vir escritos solitariamente, formando ele sozinho uma dada frase.


Emoticons escritos

Uma classe especial, bem interessante, é a dos emoticons escritos - que não têm origem pictográfica, mas são sequencias de letras (geralmente nascidas de abreviações que se consagraram) que representam uma ação ou emoção não-conceitual. Um exemplo freqüente é a expressão de risadas "rs" (e as variantes existentes nos estados unidos, como "lol"). Mesmo que se queira tratar como abreviações, pelo menos a função sintática é a dos emoticons. Há também os que defenderiam tratar essas expressões como interjeições - que usualmente é uma classe que representa emoções não-conceituais, mas que também são expressas verbalmente. As 'risadas por extenso' (hahahah, hehehe, hihihi, auehhieoehoae, etc.) me parecem mais claramente membras desta classe.

Meu Mapa Musical

Em mais um post auto-referente, vou listando aqui meu gosto musical. Mas com os músicos agrupados em classes que parecem ser as tendências dominantes do meu próprio gosto musical, as características de cada musico que me fazem gostar especialmente dele. É como um mapa musical da minha cabeça - que possivelmente revela algumas características não-musicais relevantes desta.


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Guias-Mestras:
(onde a maior parte das características posteriormente citadas supostamente convergem)
Debussy e Ravel
Sigur Rós e Radiohead
Em especial, a sensação de não-pertencimento ao mundo que eles transmitem; eles fazem música olhando para um certo jeito de fazer música (a musica clássica tonal, no caso dos primeiros, o rock no caso dos segundos), estando inseridos até certo grau neste ambiente, mas deixando claro que o tempo daquilo passou, que eles não fazem mais parte daquilo.
Os componentes das duas duplas citadas fazem contraponto um ao outro: um leve, contemplativo, sentindo o mundo exterior entrando suave como o ar nos pulmões - o outro pesado, doloroso, angustiante, queimando o corpo por dentro para sair em cores fortes e vibrantes.

'Movimento Islandês':
Sigur Rós, Amiina, Múm
(acho deles o mesmo que eu acho do Sigur Rós, citado acima)


Música de Ambiente:

Mogwai, Mono, São Paulo Underground


"Musicas Culturais" (que me evocam um certo ambiente cultural específico)

- Do Mundo Cosmopolita e Globalizado
Björk - principalmente com a "musica do mundo globalizado em Volta"
Antony and the Johnsons - o sofisticado mundo artístico cosmopolita de NY
Prabhu Deva (e um pouco do Daler Menhdi) - o jeito indiano de lidar com a globalização
(dá pra citar a MIA tb, mas quem gosta dela é o zipi)

- De pedaços específicos deste mundo
Grieg - a magia nórdica
(e os concertos celta, judeu e uns outros do Max Bruch)
At-Tambur - ibéricos e celtas
meus CDs de Música Prehispanica
Deep Forest (especialmente o clip do "Sweet Lullaby")
Qntal e sua releitura eletrônica / contemporânea da medievalidade

- Dos Vizinhos
Chico Buarque, como um dos elementos da "alma brasileira"
- e Hermeto Pascoal, o que se faz no Brasil mais próximo do citado nas Guias-Mestras
Cordel do Fogo Encantado - a minha imagem de nordeste
Gotan Project e sua releitura eletrônica do Tango o.O


Músicas das Maquinas:

Kraftwerk - os pais da parada, e ainda os mais radicais nesta proposta
Daft Punk
Tangerine Dream - eletrônico de ambiente
Hot Chip
Infected Mushroom - ok, eles são meio pops e são de Israel, mas dá pra perdoar
Chemical Brothers (especialmente o "Star Guitar")
Lemon Demon - é o que dá qdo um adolescente nerd vai fazer essas coisas


Experimental & Dissonante
- o Movimento Islandês
- Igor Stravinsky
- musica eletroacústica em geral
- Hermeto Pascoal
- Marli - muito nonsense e assutador e legal!!
- Hidrogenesse


# Algumas bandas que eu gosto de forma específica
Arctic Monkeys - música rápida! (& alguma coisa do Rush)
Rammstein - música forte e robusta!
The Smiths - ingleses introspectivos (& Belle&Sebastian)
MGMT - cantos de juventude


# Algumas cantoras que são legais porque são bem delicadas:
- Americanas: Fiona Apple, Cat Power, Alanis Morissette
- Francesas: Emilie Simon, Françoise Hardy, Julie Delpy
- Portuguesas: a mulher do Madredeus
- Joanna Newson! (poderia entrar como agregada no movimento islandês)


# Bossa Nova e similares de outras partes do mundo
(afinal, sendo carioca, eu tinha que ter um lado meio assim, hehe)
- Tom Jobim e todo mundo que já gravou com ele;
- Cesaria Evora, da Angola
- Madredeus, de Portugal
- Queyi, da Espanha

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Sensus Communis

Outra discussão de MSN. Estávamos eu e o Autor do Sapere Aude discutindo sobre a Navalha de Ockham. Eu dizendo que não gosto dela, que não está na minha religião, que acho que é a maior balela que já inventaram - porque teorias nunca, nunquinha, são escolhidas com base nela. Ninguém se filia a uma concepção teórica porque é a mais simples. Alias, o conceito de "simplicidade" de uma teoria não é nada bem definido - ainda mais se formos levar em conta o que Feyerabend diz sobre a incomensurabilidade das teorias científicas em geral (isto é, a impossibilidade de compará-las, por estarem fundadas em pressupostos teóricos completamente distintos).

Seguiu-se a isso uma loooooonga passagem por todos os níveis de caricaturização daquela velha história do Copérnico (desde a mais simples: "Terra no centro, que coisa idiota! Até que veio alguém esperto e pôs o Sol no centro, deu certo, e todos vivemos felizes para centre até hoje com as órbitas circulares em torno do Sol."), e a discussão sobre até onde é lícito usar a Navalha de Ockham para favorecer Ptolomeu ou Copérnico, Copérnico ou Kepler.

Até a confissão final que mudou o curso das coisas: a de que Ele (o meu interlocutor) usava a Navalha especialmente contra as famosas Teorias de Conspiração. E eu querendo encontrar uma outra forma de descartar as teorias conspiracionistas, sem agredir tanto o ponto de vista humanista. O exemplo de conspiracionismo apresentado por ele foi o do Dragão na Garagem. A história pode ser resumida no seguinte diálogo (adaptado do diálogo escrito por Ele):

- Achei um Dragão na minha garagem!
- Sério meu???
- Sério meu!
- Po, vamo lá que eu quero ver esse dragão!

- Po meu, moh mancada sua neh? nem tem dragão aí!
- Claro que tem, só que ele tá invisível!
- Ah, entao a gente joga tinta pro alto... se tiver um dragão parte da tinta vai ficar flutuando no ar aí a gente vai poder ver ele!
- Noa meu... tipo assim, ele é imaterial tambem, saca?
- Hm... a gente pode usar uma camera de infravermelho para ver a radiação emitida por ele então.
- Ah, mas ele não emite radiação porque está na temperatura ambiente...

E assim ad infinitum, com cada medição imaginada tendo uma justificativa para que o dragão não possa ser medido. Até aí nada de errado; a teoria do dragão, encarada deste modo, se ajusta perfeitamente a todos os dados experimentais que podem ser obtidos na garagem. Mas, como Ele disse, "a maioria das pessoas iria concordar que é idiota achar que ele tem 50% de chance de estar lá."

Daí é que veio a luz, e o consenso. As pessoas não acham razoável supor o dragão. Porque o conjunto de valores aprendidos por essas pessoas ao longo de suas vidas, a partir dos pressupostos culturais - que é o que dá munição à nossa capacidade de julgar - rotula o dragão como "não-razoável". Não é porque as explicações são mais "simples" (o que quer que isso signifique) sem o dragão; mas porque o dragão não pertence ao "conjunto de coisas que são razoáveis" - não pertencem ao senso comum.

Que alegria! Um conceito genuinamente humanista, que então aparece como o elemento fundamental no julgamento e na escolha das explicações sobre o mundo. As duas teorias são iguais do ponto de vista empírico; o que as diferencia são os conceitos que, em um dado grupo de pessoas, são ou não são considerad0s "aceitáveis". Poderíamos batizar isso de Navalha do Senso Comum:

Na dúvida de qual explicação escolher, fique com o que ofende menos o seu bom senso.

Fim de jogo.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Islândia

Uma das coisas mais divertidas de se fazer é futurologia (como será o mundo quando...?) e futuro-do-preterito-logia (como seria o mundo se...?). Então vamos lá.

A idéia surgiu em mais uma madrugada de conversa fiada no MSN. Estávamos falando sobre como a história nos ensina (é, historia magistra vitae mesmo, falou?!) que grupos extremamente irrelevantes na periferia de grandes impérios e civilizações, justamente por serem irrelevantes e ninguém ligar para eles de início, freqüentemente viram o jogo e passam a ditar as regras no mundo (e um viva à imprevisibilidade dos acontecimentos humanos! \o/). Mongólia, Inglaterra e Japão são três exemplos que dispensam maiores explicações.

Daí, como numa boa conversa fiada de madrugada de MSN, surgiu a pergunta: em que povo irrelevante da atualidade vocês apostam para ser uma grande potência política e/ou cultural no futuro? E a minha aposta: Islândia!

Na verdade não só a Islândia, mas o Mundo Nórdico como um todo. Explico. Desde os saques vikings no século IX, o Mundo Nórdico não tem nenhuma relevância especial para o curso dos acontecimentos mais globais da Europa e, por tabela, do Ocidente (que era e continua sendo, em boa medida, sinônimo para “Europa Estendida”). Nunca exerceram grande influência no resto da Europa, não representaram participação significativa em nenhuma grande guerra européia (talvez um pouco na Segunda Guerra Mundial). No entanto, hoje são os países com o maior IDH do mundo (a gente sempre se surpreende, na escola, quando ouve isso pela primeira vez). Um bom sinal de relativa irrelevância no passado, e de potencial para fazer coisas num futuro não muito distante.

Claro que eu não estou falando em dominação política, que isso nem faz muito mais sentido no mundo de hoje. O Japão, por exemplo, tradicional ilha periférica e insignificante no mar da China, nunca teve nenhuma dominação política externa pronunciada (afora os surtos de grandeza da Segunda Guerra), mas devorou pílulas de ocidente numa velocidade assustadora e hoje domina de forma muito forte o cenário cultural mundial. Como o meu irmão diz: todo desenho animado agora tem traços de Mangá e de Anime. O Japão virou o maior exportador de modinhas orientais para o ocidente.

E desse ponto de vista, o cultural, que eu vejo um futuro interessante para o Mundo Nórdico. Eles têm uma produção artística muito característica (e muito bem financiada), bastante própria e diferente dos padrões ocidentais comuns. Na última Bienal de Arquitetura de São Paulo (a de 2007), me surpreendeu a grande quantidade de mega-projetos dinamarqueses de urbanismo sendo executados em cidades chinesas!

O cenário fica 20 vezes mais favorável se formos pensar na música. Finlândia e Noruega são países claramente destacados em dois tipos de experimentalismos musicais de ponta: o experimentalismo da musica erudita / acadêmica, e a incorporação de elementos eruditos nos cantos épicos do Metal \,,/. Outro tipo de experimentalismo, que me atrai especialmente, é o que é praticado na Islândia. A começar pela Björk, um dos maiores ícones do mundo da musica pop – tornando o experimentalismo musical algo pop o.O – , primeiro arauto do que virá (ela inclusive tem uma agência na islândia para financiar novos artistas talentosos). O último CD dela, Volta, como um cântico da globalização, é bem simbólico.


Os islandeses em geral me passam uma impressão muito forte de que estão falando da cultura ocidental mas ao mesmo tempo estão fora dela (como o Debussy com as escalas cromáticas, em relação à musica tonal). Esse “olhar extraterrestre” sobre nós, me parece, é essencialmente o que faz da música islandesa tão interessante para o ocidente em geral. Tudo isso com uma lírica que é muito, muito característica de toda música que vem daquela ilha. Novamente, a Björk é um ótimo exemplo.

E daí o experimentalismo, a falta de pudor com pegar todos os elementos da cultura ocidental e ficar brincando com eles. Outro exemplo extremamente elucidativo é o da Amiina, grupo de quatro meninas (originalmente um quarteto de cordas) que lançou seu primeiro CD em 2007. Sobre o início do grupo, o site delas diz: “They gathered together every last instrument they could find and piled them into their car”. Depois disso, elas ficam aparecendo em programas de TV tocando serrotes com arco de violoncelo e produzindo harmonias em conjuntos de campainhas de secretária! Com relação ao arco de violoncelo, talvez tenham aprendido com o Sigur Rós, cujo vocalista e guitarrista já o usa quase sempre em sua guitarra.


Já estou começando a ter visões. Björk abriu as primeiras portas e talvez seja lembrada no futuro como uma espécie de matriarca. Sigur Rós e Múm estão despontando como bandas de fama internacional consolidada (com direito a serem usadas constantemente nas trilhas sonoras de reportagens do Fantástico). Amiina, no rastro do SR, são um dos exemplos do que está surgindo agora-agorinha. Quem sabe o que virá pelos próximos dois ou três anos? Logo logo, de forma cada vez mais difundida, a label “musica islandesa” estará associada à música experimental, a uma outra forma bem sucedida de encontro entre o rock e a musica erudita, a um padrão musical bem característico e visto em geral como de alta qualidade. Se o Sigur Rós continuar o trabalho deles na linha atual, isso vai levar a uma divulgação crescente, junto com as músicas, de outras práticas culturais exóticas e dos cenários naturais estonteantes e extraterrestres da Terra do Gelo. O turismo natural, associado ao turismo musical, vão crescer – primeiro dentro da Europa, depois envolvendo Estados Unidos e (quiçá) América Latina. Os pubs de Reykjavik vão começar a encher, todo mundo atraído por ver apresentações dos seus músicos preferidos em seu habitat natural. Reykjavik, como um todo, vai se tornar uma cidade referência em termos musicais. Todo mundo vai falar desse país que, até a década de 50, era não muito mais que um distrito da Dinamarca. O processo, como um todo, só vai ser reforçado pelos atrativos do resto do Mundo Nórdico: a atenção à Islândia atrairá mais atenção para seus vizinhos; a atenção para os atrativos de seus vizinhos aumentará ainda mais a visibilidade da Islândia. =~~~~~~

Os próximos anos ainda têm que ver um dilema ocidente x china na definição do perfil cultural deste mundo globalizado, num primeiro momento. Mas pelo menos no primeiro lado desse dilema, a voz dos homens do gelo tem muito o que acrescentar ao desenho do quadro.

Identidades Escolares

Aproveitando o tema das identidades, deixa eu desenvolver um sobre o qual eu andei pensando: as identidades escolares.

Claro, a coisa mais normal do mundo é alguém desenvolver um sentimento especial pela sua turma de colégio, que possivelmente acompanhou esse alguém por alguns dos anos mais marcantes de seu amadurecimento. Mas aqui eu estou falando de outra coisa: não do vínculo com as pessoas conhecidas e importantes, simplesmente, mas de um vínculo que envolve também todos os alunos do colégio que esse alguém nunca conheceu e nunca conhecerá (incluindo os que estudaram lá no passado), além da própria estrutura e do nome do colégio – uma autêntica comunidade imaginada.

Esse sentimento é especialmente forte no Colégio Pedro II, aqui no Rio. Conheço não-poucas pessoas que estudaram lá, e todas elas apresentam, de forma mais ou menos explícita, um orgulho de terem estudado lá, sempre que o assunto vem à tona de alguma forma. Alunos de lá são não raro parados na rua por adultos só para estes dizerem de boca cheia que também estudaram lá!

Conversei com dois ex-alunos do Pedro II sobre o orgulho que eles sentem do colégio. Destaquei algumas das melhores falas deles, como se segue:

“O Pedro II é bem único num certo sentido (escola pública boa, sem ser militar ou técnico), e tem uma história bem longa... é a 2a escola mais antiga do país... isso gera um certo orgulho em estudar lá”.

”A tradição de uma instituição é algo que se percebe nos pequenos detalhes”. “Por exemplo, ao se formar lá a gente ganha o título de Bacharel em Ciências e Letras. Isso é coisa da época do Império.”

“O Pedro II representa um outro tipo de modelo. Outro dia eu fui ver o edital do vestibular de historia na PUC e vi:1400 de mensalidade. Quando vc senta na sala de aula e percebe que você está tendo uma boa educação não por causa do sucesso financeiro dos seus pais, mas simplesmente por ser um cidadão deste país – como se educação fosse um direito universal e inalienável – vc sente algo que é inesquecível, a idéia de que existe um outro projeto de sociedade onde as pessoas trabalham para que Todos, Todos, possam subir na vida com base exclusiva no mérito acadêmico, não importando se vc é filho de deputado ou de empregada doméstica (ambos exemplares existiam na minha sala). Quando vc senta numa sala do CPII vc se sente conectado a todos as pessoas do país, pois sabe que naquele momento, milhões de trabalhadores estão dando duro para que vc tenha acesso a esse direito. Vc sente o que é realmente o conceito de sociedade.”

“Na [Universidade] Federal também dá para sentir isso, mas o clima é mto mais duro; no CPII é mais agradável e é mais explícita a sensação de acesso universal.”

“Além do CPII ser a prova experimental viva de que é absurda as teorias de que defendem que a Elite é Elite por ter sido mais inteligente. Muita gente, mas muita mesmo, tem um enorme talento e só não consegue se dar bem não existir mais CPII por aí. Todo mundo fala isso. Mas só um aluno CPII vive isto.”

Claro que, como muitas identidades, elas só se fortificam dentro do indivíduo quando ele está afastado da comunidade imaginada, em “confronto” com pessoas estrangeiras a ela. (é como o súbito nacionalismo que geralmente nos toma quando estamos fora do país, em contato com pessoas de outros lugares). “Melhor que ser aluno do CPII é ter sido aluno do CPII.”

Esse caráter de escola pública de qualidade como motivo de orgulho também está presente, em maior ou menor grau, nas escolas técnicas (o CEFET do Rio de Janeiro é um bom exemplo), nas escolas militares (onde aparece junto com o tradicional e freqüentemente babaca “orgulho de ser militar e servir ao país”), nos colégios de aplicação das universidades (onde aparece junto com a sensação, e uma certa arrogância, de serem um laboratório de novas idéias, uma educação super-avançada, um certo sentimento de elite intelectual).

Por outro lado, no Pedro II aparece bem explicitamente também aquele outro tipo de orgulho ligado ao fato de se estar em instituições tradicionais – sentimento esse que aparece bastante em colégios católicos tradicionais que existem por todo o país. No Rio de Janeiro talvez o São Bento e o Santo Inácio sejam os que demonstrem melhor esse tipo de sentimento (o São Bento exibe no seu site uma lista de nomes de ex-alunos ilustres, hehehe).

(Eu mesmo nunca estudei no Pedro II, mas sinto um certo orgulho da existência dele como mais uma das instituições federais tradicionais que povoam a cidade. No meu caso, o orgulho de existência do Pedro II faz parte do orgulho da ser carioca, mencionado no último post).


O sentimento de identidade em colégios públicos e particulares comuns é bem mais raro. Inclusive, naqueles colégios particulares excessivamente voltados para o vestibular (eu estudei em um deles), em que são muitos os alunos que saíram de seus colégios para fazer o terceiro ano com mais garantias de aprovação, é comum ver se desenvolver um sentimento de “anti-orgulho”. É algo do tipo: ‘eu estudo aqui só pelo interesse, só pra garantir no vestibular, mas odeio isso aqui; colégios comerciais, não vejo como isso aqui pode dar alguma formação decente pra alguém. Meu colégio do coração mesmo era aquele que eu estudava antes de vir pra cá.’ Eu particularmente acho disso algo entre engraçado, hipócrita e estúpido. Mas não deixa de ser um fenômeno bastante interessante.