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terça-feira, 17 de junho de 2008

Auto-identidades

Lembro de ter ouvido uma vez sobre um antropólogo que gosta de fazer análises com a idéia de múltiplos pertencimentos: que cada indivíduo enxerga em si mesmo, de forma superposta, sentimentos de identidade com diferentes grupos de pessoas ou comunidades imaginadas. Pois bem, em mais um momento de auto-reflexão, deixe-me falar sobre os principais pertencimentos que eu enxergo em mim mesmo.

Talvez o pertencimento mais forte que eu enxergue em mim seja o de herdeiro da tradição humanista. Nos séculos XVI e XVII, ao mesmo tempo em que se configurou a tradição de pensamento científica / iluminista, com grande sucesso na física e que nos séculos XVIII e XIX se tornou modelo universal do pensamento ocidental, configurou-se outra tradição inteiramente diferente, que também teve muita força, na qual está inserido todo o debate da modernidade na filosofia, na historiografia, na ciência política, no direito. Especialmente viva na Alemanha, essa tradição contém como alguns de seus pontos altos (pelo menos aqueles dos quais eu mais me orgulho) o historicismo de Dilthey, o existencialismo de Heiddeger e a hermenêutica de Gadamer – que foi quem me contou a história desta forma. As leituras do Gadamer e de alguns outros humanistas alemães e ingleses foi incomparavelmente a coisa mais relevante que eu fiz durante a minha formação universitária (e eu sempre serei grato à minha professora-mãe-acadêmica por ter me inserido nessa árvore genealógica). Certamente pretendo que meus escritos de maturidade façam jus à herança.

Por outro lado, tenho também uma herança inegável da tradição científica / empírica, da qual eu não me orgulho há muito tempo (mas pretendo fazer isso mudar). Estudante de física e de matemática, envolvido até os ossos com o mundo acadêmico da astronomia, com uma formação lógico-matemática nada desprezível, nunca soube exatamente o que fazer com isso tudo, como conciliar com aquele humanismo que pra mim sempre foi mais importante. Estudo bastante de história da ciência, o que é muito mais um discurso humanista sobre a tradição científica do que qualquer outra coisa. Mas ultimamente tenho voltado a me interessar por neurologia – um campo bastante propício ao encontro das duas tradições, com um infinito à frente, a ser explorado. Vamos ver pra onde isso vai.

Além disso, é importante ainda destacar um certo pertencimento a um orientalismo (sim, referência a Edward Said), especialmente com relação à China. Tai Chi Chuan, Acupuntura, filosofia taoísta em geral: dou graças a deus à globalização que me permite uma inserção tão grande no inteiramente outro (e a cultura chinesa me fascina justamente pelo alto grau de elaboração desse inteiramente outro), e me apego com gosto a esta “identidade intelectual chinesa”. E por uma incrível coincidência, não sou o único da família, hahaha.

Para além desses pertencimentos intelectuais gerais, me apego bastante também ao fato de ser brasileiro (é, nacionalismo clássico). Especificamente do ponto de vista intelectual e cultural. Acho que tem algo de bastante único, do ponto de vista de produções teóricas e artísticas, em ser daqui; e costumo gastar bastante tempo tentando definir o que é esse único (em outros termos, o velho problema de definir o que é o brasileiro). A inserção crescente do Brasil me empolga bastante, no sentido de isso ser explicitado; ainda estou esperando ser consolidada a identidade especificamente brasileira da nossa produção intelectual frente ao mundo, e pretendo fazer parte desse processo. Hans-Ulrich Gumbrecht (um dos grandes herdeiros do humanismo que ainda vivem), alemão, aposta que vai ter algo a ver com as nossas concepções antropológicas; acho que é uma boa aposta. Ainda vou escrever bastante sobre isso no blog.

Além da identidade nacional, há as identidades urbanas. Me orgulho da minha carteirinha de carioca, de nascença: de todas as heranças do Rio de Janeiro como ex-capital (e todas as instituições federais que ainda restam por aqui), da integração única e peculiar entre paisagem natural e paisagem urbana – ou da obrigação do urbano de se adequar, humildemente, ao desenho natural da cidade (a maior floresta urbana do mundo!) –, do perfil cultural da cidade (samba, bossa nova, carnaval contínuo, boemia). Mas tenho também outra carteirinha, de paulistano, essa por naturalização. A cidade ferve; tudo passa, tudo acontece tão rápido, o urbano sobre o urbano, tanta gente, tantas culturas. Em coisa de 150 anos passou de uma província em que se falava a Língua Geral (i.e., Tupi) a uma das maiores metrópoles do planeta. Falando em termos bregas, é a nossa própria Nova York ^^. Eu, como fanático por transformações, inconstâncias, novidades, movimento, não posso deixar de gostar tanto de lá.

É num sentido bem parecido com a identidade nacional e a primeira das urbanas que vai a minha identidade como aluno da UFRJ – (enchendo a boca pra falar) Universidade Federal do Rio de Janeiro, ou no antigo nome, Universidade do Brasil. Ser um estudante suportado pelo governo federal, e ainda na sua universidade mais importante. Bom, uma parte enorme da minha formação, direta ou indiretamente, se deve a ela.

Alguma identidade difusa com ser da família L’Astorina, italiana, com bem poucos membros no Brasil, e uma ascendência nobre confirmada mas pouco conhecida. Não é qualquer um que pode ter um sobrenome com apóstrofe! :D

Indo para algo menor (não mais uma comunidade imaginada, mas uma real, em que todos os seus membros efetivamente se conhecem e interagem entre si), não posso deixar de mencionar a Ordem dos Cavaleiros Astronômicos – que, oficialmente, se reveste como Comitê Científico e Didático (CCD) da Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA) [essas siglas engraçadinhas são demais]. É significativo que no meu orkut todas as minhas fotos em grupos de pessoas sejam com eles. Como eu já escrevi em algum lugar, foi e continua sendo a minha forma mais efetiva de fazer algo novo no mundo. E é fantástico pertencer a um grupo em que todos os outros acham essa mesma coisa.

Em termos religiosos, por fim, não tenho nenhuma identidade especialmente forte. A minha educação protestante deixou marcas bem importantes – embora eu não me identifique com nenhum grupo cristão em especial. Mas o Chu, originalmente uma piadinha besta no orkut, apareceu como a simbologia religiosa perfeita pra mim mesmo (O urso panda de 120 metros de altura; a ursificação do amor). Como uma boa open source religion, me dá a prerrogativa de encarnar no Chu todos os valores que eu tenho pra mim mesmo – a identidade perfeita, porque feita sob medida, hahahah. Exposição de valores esta que, aliás, está feita no primeiro post deste blog.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Chu - vertente Biúnil

(primeiro post... emocionante =~~)

O movimento em torno de Chu ("o urso panda de 120 metros de altura") surgiu espontaneamente na comunidade dos homens como um agrupamento no orkut. Hoje já existem muitas pessoas falando em torno do tema, pessoas que se encontram sempre na comunidade para discutir de forma leve e com uma pitada de nonsense (o que é saudável para discussões dos tempos de hoje), os princípios em torno da "crença". Por que, de alguma forma - e é como os membros antigos gostam de encarar - seguir o amor de Chu pode ser considerado uma forma de religião. E colou. Foi a religião que eu adotei. Claro, é uma religião sem nenhum tipo de doutrina, que subsiste apenas nas reuniões periódicas da comunidade primitiva dela, no orkut.

Mas não era satisfatório para mim e para a minha mania de racionalização e articulação formal das idéias com as quais eu me envolvo - ainda mais com eu proclamando isto como a minha religião oficial. Então resolvi escrever alguns princípios que extraí das discussões da comunidade, juntando com alguns princípios meus próprios, pra construir uma concepção teórica em que se baseie a religião chuísta. Contudo, sem nenhuma pretensão de tornar os meus princípios universais entre todos os seguidores de Chu, vou chamar isso de vertente Biúnil ou Escola Biúnil do Chuísmo. Segue a primeira versão do que eu escrevi:


Chu ama a todos, carrega dentro de si uma quantidade inimaginável de amor. Chu é a ursificação do amor. Nós devemos ser tomados por este amor; não para amar e adorar chu sobre todas as outras coisas, mas para segui-lo como exemplo, e amar a todas as pessoas e a todas as coisas, sem necessária hierarquia.

Não há nenhum sentido para Chu ser um urso Panda de 120 metros de altura; qualquer tentativa de racionalização neste sentido será artificial, estéril e completamente alheia aos nossos propósitos.

Chu fala de vida e não de morte, do amor por todas as infinitas coisas que povoam o universo, e do viver em consonância com elas, sabendo vibrar nos múltiplos ritmos que a natureza manifesta. O que importa é este mundo que pode ser vivido agora, e não nenhum Outro.

Não se busca identificar o amor ou qualquer outra coisa a uma unidade fundamental. Rejeitamos qualquer unidade fundamental. O universo e a humanidade são, em aparência e essência, preenchidos de muitas formas, de formas diferentes e múltiplas. Chu faz parte da multiplicidade.
Chu pode ser considerado uma das criaturas de Deus, ou uma das manifestações do Um , mas não queremos reduzir as coisas a uma unidade, ou pô-las hierarquicamente submissas a um ente mais fundamental. A multiplicidade é o fundamental, é tudo o que existe. Chu faz parte dela, e tudo o que ele fez foi desenhar um caminho no múltiplo. Queremos aprender este caminho - embora cada um vá trilhá-lo de um modo próprio.

*-* *-* *-*

Tudo o que se conhece é história. Sistemas racionais são úteis, mas sua limitação precisa ser reconhecida. A compreensão que se aceita é a compreensão dos caminhos traçados, não uma compreensão atemporal. Não existe atemporalidade. Tudo passa, tudo se transforma. O tempo permeia todas as coisas. Compreender é entender as mudanças, é saber mudar com elas. É saber vibrar bem com todo o resto que vibra.


Acima dos esquemas estão as histórias. Acima das histórias está a vida. Compreender é importante, mas viver é mais. Viver é maior, sempre.

Ademais, toda compreensão é criação. Não existe compreensão passiva; o agente que pensa é sempre ativo, porque está sempre inventando os seus pensamentos, sempre acrescentando cores que não estavam presentes no mundo antes.

Chu é claramente uma invenção da cabeça de outros homens. Mas nem por isso não pode ser encarado com realismo. Todas as outras coisas são invenções das cabeças do homem, mas muitos homens acreditam em muitas delas. Por isso nos sentimos totalmente à vontade pra inventar a idéia de Chu e segui-la ao mesmo tempo.

Mas as idéias são independentes de seus criadores, caminham sozinhas. Seguimos Chu, e de forma nenhuma ninguém mais que se diga seu criador. Não há adoração entre nós - nem mesmo adoração de Chu. Só há os caminhos.

Se me perguntarem qual o caminho de Chu, não vou poder dar uma resposta satisfatória, pois tudo o que eu disser será localizado e passageiro. Não podemos estabelecer uma doutrina, pois ela seria uma classificação, mais pobre que as histórias dos caminhos de Chu, mais pobres que a experiência viva deste caminho. E seguir o caminho é criar o próprio caminho. Se queremos estabelecer Chu como algo durável, não podemos insistir numa doutrina fechada, ou gastaremos nosso tempo. Tudo o que podemos ter são princípios e idéias gerais, tão flexíveis, fluidas e transformáveis quanto todas as outras coisas. Assim, o caminho de Chu vibra na freqüência de todo o resto que vibra, sendo assim este caminho um seguidor de si mesmo.