sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Um mundo, um sonho
Sabemos o poder simbólico que as Olimpíadas têm no nosso mundo. Nesses dois séculos tão belicosos, tão competitivos para os países ocidentais (o século XIX que começou com Napoleão, foi atravessado pelas invenção das guerras nacionalistas, e desembocou num século com duas guerras mundiais e uma guerra fria que partiu o mundo em duas fatias), foi uma das melhores idéias enfiar fundo a mão nas raízes comuns do ocidente, e recuperar o maior símbolo de convivência pacífica entre diferentes. O evento que pausou a Guerra do Peloponeso; em que todas as cidades pararam o curso de suas evoluções políticas para ver o Fogo que Prometeu roubou dos deuses sendo aceso, para que cada ser humano não quisesse mostrar nada ali além da sua própria excelência.
As Olimpíadas na sua versão moderna foram uma promessa de paz que nunca se cumpriu. Mas foi também uma promessa de mundo. O Ocidente podia então se enxergar como a Grécia: por mais diferentes que fossem as cidades, estavam ali para celebrar sua herança comum, estando certos de estarem produzindo o melhor do fato de serem humanos. Talvez a unica manifestação de sensatez num mundo em que as nações ocidentais se destruiam mutuamente em nome de mais e mais pedaços do resto do mundo. Eles ocidentalizaram o mundo, de fato, levando a todos seus ideais, sua visão, mas levando também, sem perceber, esse que pode ser chamado de ideal olímpico.
O traumático século XX acabou com a queda do muro que dividia, na capital do centro da europa, as duas metades ocidentais do planeta. As duas olimpíadas seguintes foram organizadas em cidades bem pacíficas e distantes do centro dos acontecimentos, enquanto o resto do mundo terminava de se reconstruir. Em 2004 as Olimpíadas voltaram para o seu berço, como que para repensar o que foi a história do ocidente e do mundo ocidentalizado; uma volta às origens para recomeçar em outra direção. Foi em Atenas, símbolo máximo da tradição que refez o mundo, que os gregos entregaram o Fogo dos Deuses aos chineses, civilização igualmente antiga, mas guardando a promessa do novo.
Foram quatro anos de espera muito ansiosa. Mas atingimos o turning point; a ocidentalização do mundo finalmente acabou. Começamos a globalização efetiva. Desfilando todas as suas maiores conquistas culturais, físicas, intelectuais e tecnológicas, a china finalmente conseguiu do ocidente o respeito que nunca havia tido. Finalmente outra voz se ergue no mundo, num mundo que agora tem muitas vozes, muitas cores. O fogo agora está nas mãos do homem chines, que salta do centro das nações, correndo, tocando o ar com os pés com a leveza típica dos heróis chineses, desenrolando atrás de si o pergaminho que conta a árdua travessia dos últimos anos. Corre naquele Céu, o círculo, que envolve todas as nações, e faz a grande Tocha anunciar: o século XXI começou.
terça-feira, 17 de junho de 2008
Islândia
A idéia surgiu em mais uma madrugada de conversa fiada no MSN. Estávamos falando sobre como a história nos ensina (é, historia magistra vitae mesmo, falou?!) que grupos extremamente irrelevantes na periferia de grandes impérios e civilizações, justamente por serem irrelevantes e ninguém ligar para eles de início, freqüentemente viram o jogo e passam a ditar as regras no mundo (e um viva à imprevisibilidade dos acontecimentos humanos! \o/). Mongólia, Inglaterra e Japão são três exemplos que dispensam maiores explicações.
Daí, como numa boa conversa fiada de madrugada de MSN, surgiu a pergunta: em que povo irrelevante da atualidade vocês apostam para ser uma grande potência política e/ou cultural no futuro? E a minha aposta: Islândia!
Na verdade não só a Islândia, mas o Mundo Nórdico como um todo. Explico. Desde os saques vikings no século IX, o Mundo Nórdico não tem nenhuma relevância especial para o curso dos acontecimentos mais globais da Europa e, por tabela, do Ocidente (que era e continua sendo, em boa medida, sinônimo para “Europa Estendida”). Nunca exerceram grande influência no resto da Europa, não representaram participação significativa em nenhuma grande guerra européia (talvez um pouco na Segunda Guerra Mundial). No entanto, hoje são os países com o maior IDH do mundo (a gente sempre se surpreende, na escola, quando ouve isso pela primeira vez). Um bom sinal de relativa irrelevância no passado, e de potencial para fazer coisas num futuro não muito distante.
Claro que eu não estou falando em dominação política, que isso nem faz muito mais sentido no mundo de hoje. O Japão, por exemplo, tradicional ilha periférica e insignificante no mar da China, nunca teve nenhuma dominação política externa pronunciada (afora os surtos de grandeza da Segunda Guerra), mas devorou pílulas de ocidente numa velocidade assustadora e hoje domina de forma muito forte o cenário cultural mundial. Como o meu irmão diz: todo desenho animado agora tem traços de Mangá e de Anime. O Japão virou o maior exportador de modinhas orientais para o ocidente.
E desse ponto de vista, o cultural, que eu vejo um futuro interessante para o Mundo Nórdico. Eles têm uma produção artística muito característica (e muito bem financiada), bastante própria e diferente dos padrões ocidentais comuns. Na última Bienal de Arquitetura de São Paulo (a de 2007), me surpreendeu a grande quantidade de mega-projetos dinamarqueses de urbanismo sendo executados em cidades chinesas!
O cenário fica 20 vezes mais favorável se formos pensar na música. Finlândia e Noruega são países claramente destacados em dois tipos de experimentalismos musicais de ponta: o experimentalismo da musica erudita / acadêmica, e a incorporação de elementos eruditos nos cantos épicos do Metal \,,/. Outro tipo de experimentalismo, que me atrai especialmente, é o que é praticado na Islândia. A começar pela Björk, um dos maiores ícones do mundo da musica pop – tornando o experimentalismo musical algo pop o.O – , primeiro arauto do que virá (ela inclusive tem uma agência na islândia para financiar novos artistas talentosos). O último CD dela, Volta, como um cântico da globalização, é bem simbólico.
Os islandeses em geral me passam uma impressão muito forte de que estão falando da cultura ocidental mas ao mesmo tempo estão fora dela (como o Debussy com as escalas cromáticas, em relação à musica tonal). Esse “olhar extraterrestre” sobre nós, me parece, é essencialmente o que faz da música islandesa tão interessante para o ocidente em geral. Tudo isso com uma lírica que é muito, muito característica de toda música que vem daquela ilha. Novamente, a Björk é um ótimo exemplo.
