Mostrando postagens com marcador escolas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador escolas. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de junho de 2008

Identidades Escolares

Aproveitando o tema das identidades, deixa eu desenvolver um sobre o qual eu andei pensando: as identidades escolares.

Claro, a coisa mais normal do mundo é alguém desenvolver um sentimento especial pela sua turma de colégio, que possivelmente acompanhou esse alguém por alguns dos anos mais marcantes de seu amadurecimento. Mas aqui eu estou falando de outra coisa: não do vínculo com as pessoas conhecidas e importantes, simplesmente, mas de um vínculo que envolve também todos os alunos do colégio que esse alguém nunca conheceu e nunca conhecerá (incluindo os que estudaram lá no passado), além da própria estrutura e do nome do colégio – uma autêntica comunidade imaginada.

Esse sentimento é especialmente forte no Colégio Pedro II, aqui no Rio. Conheço não-poucas pessoas que estudaram lá, e todas elas apresentam, de forma mais ou menos explícita, um orgulho de terem estudado lá, sempre que o assunto vem à tona de alguma forma. Alunos de lá são não raro parados na rua por adultos só para estes dizerem de boca cheia que também estudaram lá!

Conversei com dois ex-alunos do Pedro II sobre o orgulho que eles sentem do colégio. Destaquei algumas das melhores falas deles, como se segue:

“O Pedro II é bem único num certo sentido (escola pública boa, sem ser militar ou técnico), e tem uma história bem longa... é a 2a escola mais antiga do país... isso gera um certo orgulho em estudar lá”.

”A tradição de uma instituição é algo que se percebe nos pequenos detalhes”. “Por exemplo, ao se formar lá a gente ganha o título de Bacharel em Ciências e Letras. Isso é coisa da época do Império.”

“O Pedro II representa um outro tipo de modelo. Outro dia eu fui ver o edital do vestibular de historia na PUC e vi:1400 de mensalidade. Quando vc senta na sala de aula e percebe que você está tendo uma boa educação não por causa do sucesso financeiro dos seus pais, mas simplesmente por ser um cidadão deste país – como se educação fosse um direito universal e inalienável – vc sente algo que é inesquecível, a idéia de que existe um outro projeto de sociedade onde as pessoas trabalham para que Todos, Todos, possam subir na vida com base exclusiva no mérito acadêmico, não importando se vc é filho de deputado ou de empregada doméstica (ambos exemplares existiam na minha sala). Quando vc senta numa sala do CPII vc se sente conectado a todos as pessoas do país, pois sabe que naquele momento, milhões de trabalhadores estão dando duro para que vc tenha acesso a esse direito. Vc sente o que é realmente o conceito de sociedade.”

“Na [Universidade] Federal também dá para sentir isso, mas o clima é mto mais duro; no CPII é mais agradável e é mais explícita a sensação de acesso universal.”

“Além do CPII ser a prova experimental viva de que é absurda as teorias de que defendem que a Elite é Elite por ter sido mais inteligente. Muita gente, mas muita mesmo, tem um enorme talento e só não consegue se dar bem não existir mais CPII por aí. Todo mundo fala isso. Mas só um aluno CPII vive isto.”

Claro que, como muitas identidades, elas só se fortificam dentro do indivíduo quando ele está afastado da comunidade imaginada, em “confronto” com pessoas estrangeiras a ela. (é como o súbito nacionalismo que geralmente nos toma quando estamos fora do país, em contato com pessoas de outros lugares). “Melhor que ser aluno do CPII é ter sido aluno do CPII.”

Esse caráter de escola pública de qualidade como motivo de orgulho também está presente, em maior ou menor grau, nas escolas técnicas (o CEFET do Rio de Janeiro é um bom exemplo), nas escolas militares (onde aparece junto com o tradicional e freqüentemente babaca “orgulho de ser militar e servir ao país”), nos colégios de aplicação das universidades (onde aparece junto com a sensação, e uma certa arrogância, de serem um laboratório de novas idéias, uma educação super-avançada, um certo sentimento de elite intelectual).

Por outro lado, no Pedro II aparece bem explicitamente também aquele outro tipo de orgulho ligado ao fato de se estar em instituições tradicionais – sentimento esse que aparece bastante em colégios católicos tradicionais que existem por todo o país. No Rio de Janeiro talvez o São Bento e o Santo Inácio sejam os que demonstrem melhor esse tipo de sentimento (o São Bento exibe no seu site uma lista de nomes de ex-alunos ilustres, hehehe).

(Eu mesmo nunca estudei no Pedro II, mas sinto um certo orgulho da existência dele como mais uma das instituições federais tradicionais que povoam a cidade. No meu caso, o orgulho de existência do Pedro II faz parte do orgulho da ser carioca, mencionado no último post).


O sentimento de identidade em colégios públicos e particulares comuns é bem mais raro. Inclusive, naqueles colégios particulares excessivamente voltados para o vestibular (eu estudei em um deles), em que são muitos os alunos que saíram de seus colégios para fazer o terceiro ano com mais garantias de aprovação, é comum ver se desenvolver um sentimento de “anti-orgulho”. É algo do tipo: ‘eu estudo aqui só pelo interesse, só pra garantir no vestibular, mas odeio isso aqui; colégios comerciais, não vejo como isso aqui pode dar alguma formação decente pra alguém. Meu colégio do coração mesmo era aquele que eu estudava antes de vir pra cá.’ Eu particularmente acho disso algo entre engraçado, hipócrita e estúpido. Mas não deixa de ser um fenômeno bastante interessante.