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domingo, 2 de dezembro de 2012

Arquitetura de ideias

Quatro anos  depois, eu queria dialogar com o post das minhas auto-identidades.

Em primeiro lugar, me considero um homem das ideias. Viver com as ideias me traz mais felicidade do que viver com as coisas ou viver com as pessoas (embora haja muitas ideias na convivência com as pessoas e com as coisas – na medida em que isso me estimula às interações sociais, eu me sinto um vampiro).Sou, como alguns copacabanenses que conheço, um protótipo do que se pode imaginar que fossem os idealistas alemães do século XIX. Não exatamente isso, porque os idealistas alemães já foram. Eles já tiveram a chance de organizar o mundo dos homens, que é o que expõe suas fraquezas, faz nascer as suas críticas, e leva a novas ordenações. Como um cidadão do XXI, não pude, responsavelmente, ser imune às críticas ao idealismo: a pluralidade, os relativismos e os sentidos.

Mas os sentidos. A vida sensorial sempre foi para mim muito atraente, bem mais que a vida verbal. Com as palavras, tenho alguma relação de amor e ódio (a ser possivelmente explorada em próximos posts). Mas eu diria que a vida sensorial me interessa principalmente em três sentidos:

  • Na medida em que os estímulos sensoriais geram novas ideias e, algumas vezes (raramente), novas sentenças. 
  • Como uma consequência de algumas séries de ideias, que apontam (mas, claro, não presentificam) para os sentidos como forma fundamental de perceber o mundo. Aqui dá pra citar a minha genealogia *: historicismo, existencialismo, hermenêutica e após: Heiddeger, Gadamer e Gumbrecht.  
  • Como uma forma de equilibrar a vida com as ideias e torná-la mais, bem, possível de viver. É o que herdei do taoísmo, de seus filhos e seus primos distantes (tai chi chuan, yoga, etc.): com isso, o espírito pode sair do turbilhão laranja de ideias e fluir para a ponta dos dedos. Ou, se preferir, a mente e as ideias se tornarem difusas pelo corpo. Isso impede que a cabeça, esse grande ringue ou bordel de ideias, exploda. Ok, mas mais que isso: faz elas interagirem com uma riqueza nova e especial (objeto de futuros posts).
Em particular, as ideias (e essas interferências da variedade dos sentidos) me leva a ter uma relação especial com as ideias de ordem e caos. Principalmente a fronteira entre elas, as travessias de um para outro. No mundo das ideias, meu passatempo preferido é a arquitetura de ideias: como juntá-las e construir com elas. Construir castelos de areia, que o vento leva e você refaz de outro jeito. É o que se faz (ou o que se faria, mas...) na vida intelectual acadêmica. 

Ênfase na areia. Eu não sou um homem da ordem (qualquer um que tenha passado mais de 15 minutos comigo sabe disso :P). Não sou como os meus colegas da matemática, uma das minhas fontes de formação. Eu sempre disse que, se matemática é poesia, eu sou um linguista. Porque eu sou um homem da ordem parcial. Gosto de ter nas mãos o que eu não posso segurar, gosto de pegar isso e moldar. Ou, conversamente, ver onde o seguro, sutilmente, transborda: chupar o caos dos poros da ordem (é o que me motiva aos temas de tradições intelectuais alternativas/ outsiders, superposições de ordens de épocas diferentes na sociedade ou no tecido urbano, e diversas outras formas de olhar a desordem, sempre existente mas às vezes bem escondida, nas bordas dos sistemas ordenados). Os matemáticos viajam e constroem ao longo dos reinos da ordem. Mas sem o peso do que não pode ser abraçado, não tem graça pra mim. A verdade é essa: matemática me deixa entediado. 

(É um pouco por isso que a física como vida intelectual deixou de ser uma opção para mim, no longínquo passado. No início, construir castelos de ideias usando dados experimentais como vigas foi uma ideia promissora. Mas os físicos são, hoje, muito mais chatos do que já foram. E presunçosos. E não muito tolerantes.) 

A ordem parcial foi também o que me atraiu de volta para a linguística, através da via olímpica. Um problema de linguística é, essencialmente, uma maneira aberta de se construir ordens parciais para agrupar dados linguísticos de muitas cores e texturas. Uma fonte ilimitada de prazer e diversão, e que pode ser reconciliada com meu interesse linguístico mais antigo: a tubulação dos prédios da arquitetura de ideias é a arquitetura dos conceitos (e, em particular, dos pedaços de semântica). 

Classicamente, isso me faria ir parar na filosofia? Provavelmente na filosofia natural. Mas outra escola me comprou, e minha linhagem foi feita em outro lugar: na história das ideias. Culpa dos supra- e antecitados historicismo (as limitações do tempo), existencialismo (as limitações da existência particular e contingente) e hermenêutica (as limitações das linguagens, as públicas e as mentais). E do taoísmo e da pós-hermenêutica, com as limitações do corpo, da matéria e do que se presentifica.



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* É interessante que, como pode parecer, em alguns cenários intelectuais (como o da historiografia francesa)  as pessoas preferem se agrupar sincronicamente em "gerações" que se suscedem (Annales, Nova História, Nova Nova História, etc. – algo que, quatro anos atrás, eu gostava de chamar de "Síndrome de Revolução Francesa") e em outros (como o das humanidades na Alemanha), elas preferem um agrupamento diacrônico [não gosto dessa palavra], em "linhagens"  que coexistem ao longo do tempo (e procuram traçar seus pais, avós, bisavós, etc. da vida intelectual).

Ressurectio

Quatro anos depois, resolvi ressuscitar este blog. Em um novo momento de estabilidade na vida, relaxo um pouco no que estou fazendo, ou tenho feito, e começo a me reencontrar, ou reencontrar quem eu quero ser. Esses pedaços com os quais eu esbarro, fragmentos de ideias, que podem chocar boas construções, precisam ser depositados em algum lugar. Um blog é interessante para isso, porque será uma casa no grande campo das ideias, que outras pessoas eventualmente podem achar, e chocar suas próprias construções.

Talvez eu ressuscite também o blog roxo, o gêmeo poético deste.

sábado, 2 de agosto de 2008

Meu Mapa Musical

Em mais um post auto-referente, vou listando aqui meu gosto musical. Mas com os músicos agrupados em classes que parecem ser as tendências dominantes do meu próprio gosto musical, as características de cada musico que me fazem gostar especialmente dele. É como um mapa musical da minha cabeça - que possivelmente revela algumas características não-musicais relevantes desta.


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Guias-Mestras:
(onde a maior parte das características posteriormente citadas supostamente convergem)
Debussy e Ravel
Sigur Rós e Radiohead
Em especial, a sensação de não-pertencimento ao mundo que eles transmitem; eles fazem música olhando para um certo jeito de fazer música (a musica clássica tonal, no caso dos primeiros, o rock no caso dos segundos), estando inseridos até certo grau neste ambiente, mas deixando claro que o tempo daquilo passou, que eles não fazem mais parte daquilo.
Os componentes das duas duplas citadas fazem contraponto um ao outro: um leve, contemplativo, sentindo o mundo exterior entrando suave como o ar nos pulmões - o outro pesado, doloroso, angustiante, queimando o corpo por dentro para sair em cores fortes e vibrantes.

'Movimento Islandês':
Sigur Rós, Amiina, Múm
(acho deles o mesmo que eu acho do Sigur Rós, citado acima)


Música de Ambiente:

Mogwai, Mono, São Paulo Underground


"Musicas Culturais" (que me evocam um certo ambiente cultural específico)

- Do Mundo Cosmopolita e Globalizado
Björk - principalmente com a "musica do mundo globalizado em Volta"
Antony and the Johnsons - o sofisticado mundo artístico cosmopolita de NY
Prabhu Deva (e um pouco do Daler Menhdi) - o jeito indiano de lidar com a globalização
(dá pra citar a MIA tb, mas quem gosta dela é o zipi)

- De pedaços específicos deste mundo
Grieg - a magia nórdica
(e os concertos celta, judeu e uns outros do Max Bruch)
At-Tambur - ibéricos e celtas
meus CDs de Música Prehispanica
Deep Forest (especialmente o clip do "Sweet Lullaby")
Qntal e sua releitura eletrônica / contemporânea da medievalidade

- Dos Vizinhos
Chico Buarque, como um dos elementos da "alma brasileira"
- e Hermeto Pascoal, o que se faz no Brasil mais próximo do citado nas Guias-Mestras
Cordel do Fogo Encantado - a minha imagem de nordeste
Gotan Project e sua releitura eletrônica do Tango o.O


Músicas das Maquinas:

Kraftwerk - os pais da parada, e ainda os mais radicais nesta proposta
Daft Punk
Tangerine Dream - eletrônico de ambiente
Hot Chip
Infected Mushroom - ok, eles são meio pops e são de Israel, mas dá pra perdoar
Chemical Brothers (especialmente o "Star Guitar")
Lemon Demon - é o que dá qdo um adolescente nerd vai fazer essas coisas


Experimental & Dissonante
- o Movimento Islandês
- Igor Stravinsky
- musica eletroacústica em geral
- Hermeto Pascoal
- Marli - muito nonsense e assutador e legal!!
- Hidrogenesse


# Algumas bandas que eu gosto de forma específica
Arctic Monkeys - música rápida! (& alguma coisa do Rush)
Rammstein - música forte e robusta!
The Smiths - ingleses introspectivos (& Belle&Sebastian)
MGMT - cantos de juventude


# Algumas cantoras que são legais porque são bem delicadas:
- Americanas: Fiona Apple, Cat Power, Alanis Morissette
- Francesas: Emilie Simon, Françoise Hardy, Julie Delpy
- Portuguesas: a mulher do Madredeus
- Joanna Newson! (poderia entrar como agregada no movimento islandês)


# Bossa Nova e similares de outras partes do mundo
(afinal, sendo carioca, eu tinha que ter um lado meio assim, hehe)
- Tom Jobim e todo mundo que já gravou com ele;
- Cesaria Evora, da Angola
- Madredeus, de Portugal
- Queyi, da Espanha

terça-feira, 17 de junho de 2008

Auto-identidades

Lembro de ter ouvido uma vez sobre um antropólogo que gosta de fazer análises com a idéia de múltiplos pertencimentos: que cada indivíduo enxerga em si mesmo, de forma superposta, sentimentos de identidade com diferentes grupos de pessoas ou comunidades imaginadas. Pois bem, em mais um momento de auto-reflexão, deixe-me falar sobre os principais pertencimentos que eu enxergo em mim mesmo.

Talvez o pertencimento mais forte que eu enxergue em mim seja o de herdeiro da tradição humanista. Nos séculos XVI e XVII, ao mesmo tempo em que se configurou a tradição de pensamento científica / iluminista, com grande sucesso na física e que nos séculos XVIII e XIX se tornou modelo universal do pensamento ocidental, configurou-se outra tradição inteiramente diferente, que também teve muita força, na qual está inserido todo o debate da modernidade na filosofia, na historiografia, na ciência política, no direito. Especialmente viva na Alemanha, essa tradição contém como alguns de seus pontos altos (pelo menos aqueles dos quais eu mais me orgulho) o historicismo de Dilthey, o existencialismo de Heiddeger e a hermenêutica de Gadamer – que foi quem me contou a história desta forma. As leituras do Gadamer e de alguns outros humanistas alemães e ingleses foi incomparavelmente a coisa mais relevante que eu fiz durante a minha formação universitária (e eu sempre serei grato à minha professora-mãe-acadêmica por ter me inserido nessa árvore genealógica). Certamente pretendo que meus escritos de maturidade façam jus à herança.

Por outro lado, tenho também uma herança inegável da tradição científica / empírica, da qual eu não me orgulho há muito tempo (mas pretendo fazer isso mudar). Estudante de física e de matemática, envolvido até os ossos com o mundo acadêmico da astronomia, com uma formação lógico-matemática nada desprezível, nunca soube exatamente o que fazer com isso tudo, como conciliar com aquele humanismo que pra mim sempre foi mais importante. Estudo bastante de história da ciência, o que é muito mais um discurso humanista sobre a tradição científica do que qualquer outra coisa. Mas ultimamente tenho voltado a me interessar por neurologia – um campo bastante propício ao encontro das duas tradições, com um infinito à frente, a ser explorado. Vamos ver pra onde isso vai.

Além disso, é importante ainda destacar um certo pertencimento a um orientalismo (sim, referência a Edward Said), especialmente com relação à China. Tai Chi Chuan, Acupuntura, filosofia taoísta em geral: dou graças a deus à globalização que me permite uma inserção tão grande no inteiramente outro (e a cultura chinesa me fascina justamente pelo alto grau de elaboração desse inteiramente outro), e me apego com gosto a esta “identidade intelectual chinesa”. E por uma incrível coincidência, não sou o único da família, hahaha.

Para além desses pertencimentos intelectuais gerais, me apego bastante também ao fato de ser brasileiro (é, nacionalismo clássico). Especificamente do ponto de vista intelectual e cultural. Acho que tem algo de bastante único, do ponto de vista de produções teóricas e artísticas, em ser daqui; e costumo gastar bastante tempo tentando definir o que é esse único (em outros termos, o velho problema de definir o que é o brasileiro). A inserção crescente do Brasil me empolga bastante, no sentido de isso ser explicitado; ainda estou esperando ser consolidada a identidade especificamente brasileira da nossa produção intelectual frente ao mundo, e pretendo fazer parte desse processo. Hans-Ulrich Gumbrecht (um dos grandes herdeiros do humanismo que ainda vivem), alemão, aposta que vai ter algo a ver com as nossas concepções antropológicas; acho que é uma boa aposta. Ainda vou escrever bastante sobre isso no blog.

Além da identidade nacional, há as identidades urbanas. Me orgulho da minha carteirinha de carioca, de nascença: de todas as heranças do Rio de Janeiro como ex-capital (e todas as instituições federais que ainda restam por aqui), da integração única e peculiar entre paisagem natural e paisagem urbana – ou da obrigação do urbano de se adequar, humildemente, ao desenho natural da cidade (a maior floresta urbana do mundo!) –, do perfil cultural da cidade (samba, bossa nova, carnaval contínuo, boemia). Mas tenho também outra carteirinha, de paulistano, essa por naturalização. A cidade ferve; tudo passa, tudo acontece tão rápido, o urbano sobre o urbano, tanta gente, tantas culturas. Em coisa de 150 anos passou de uma província em que se falava a Língua Geral (i.e., Tupi) a uma das maiores metrópoles do planeta. Falando em termos bregas, é a nossa própria Nova York ^^. Eu, como fanático por transformações, inconstâncias, novidades, movimento, não posso deixar de gostar tanto de lá.

É num sentido bem parecido com a identidade nacional e a primeira das urbanas que vai a minha identidade como aluno da UFRJ – (enchendo a boca pra falar) Universidade Federal do Rio de Janeiro, ou no antigo nome, Universidade do Brasil. Ser um estudante suportado pelo governo federal, e ainda na sua universidade mais importante. Bom, uma parte enorme da minha formação, direta ou indiretamente, se deve a ela.

Alguma identidade difusa com ser da família L’Astorina, italiana, com bem poucos membros no Brasil, e uma ascendência nobre confirmada mas pouco conhecida. Não é qualquer um que pode ter um sobrenome com apóstrofe! :D

Indo para algo menor (não mais uma comunidade imaginada, mas uma real, em que todos os seus membros efetivamente se conhecem e interagem entre si), não posso deixar de mencionar a Ordem dos Cavaleiros Astronômicos – que, oficialmente, se reveste como Comitê Científico e Didático (CCD) da Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA) [essas siglas engraçadinhas são demais]. É significativo que no meu orkut todas as minhas fotos em grupos de pessoas sejam com eles. Como eu já escrevi em algum lugar, foi e continua sendo a minha forma mais efetiva de fazer algo novo no mundo. E é fantástico pertencer a um grupo em que todos os outros acham essa mesma coisa.

Em termos religiosos, por fim, não tenho nenhuma identidade especialmente forte. A minha educação protestante deixou marcas bem importantes – embora eu não me identifique com nenhum grupo cristão em especial. Mas o Chu, originalmente uma piadinha besta no orkut, apareceu como a simbologia religiosa perfeita pra mim mesmo (O urso panda de 120 metros de altura; a ursificação do amor). Como uma boa open source religion, me dá a prerrogativa de encarnar no Chu todos os valores que eu tenho pra mim mesmo – a identidade perfeita, porque feita sob medida, hahahah. Exposição de valores esta que, aliás, está feita no primeiro post deste blog.