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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Ferramentas, máquinas e aparatos eletrônicos

Comecei a ler um filósofo tcheco, Vilém Flusser, tido como um dos poucos filósofos a abordar o lugar do designer no mundo dos homens. No livro que eu estou lendo ("O Mundo Codificado", ed. Cosac Naify), que na verdade é uma coleção de mini-artigos, há uma porção de ideias interessantes. Uma delas é uma divisão da história da relação entre o homem e as coisas em quatro fases:

Na primeira, há a exploração do mundo com a "mão nua",  quando o homem explora, de forma direta e imediata, o mundo externo a si. Trata-se de uma construção teórica já que, como o próprio livro menciona, as ferramentas existem há mais tempo que o homo sapiens sapiens.

A segunda é a das ferramentas, que funcionam como uma extensão e próteses das mãos. As informações herdadas se tornam cada vez menos relevantes que as aprendidas. O contato com o mundo passa a ser mediado (o homem cerca-se de suas ferramentas, e de cultura) e as coisas passam a ser cada vez menos colhidas e mais construídas.

A terceira é a das máquinas. É claro que a transição entre as fases é suave e não é possível classificar rigidamente os objetos. Mas uma máquina arquetípica é diferente de uma ferramenta arquetípica em alguns sentidos importantes:

(i) as ferramentas são construídas empiricamente, a partir de um conhecimento razoavelmente direto de como funcionam os materiais e que trabalho precisa ser realizado sobre eles. As máquinas, por outro lado, são construidas por teorias de como as coisas funcionam. A era das Máquinas é, portanto, a era da Ciência Moderna (leia-se, da física, especialmente da mecânica). E, da mesma forma que a ciência existe para a tecnologia (embora possua seu grau de existência autônoma), a filosofia existe para a sociedade e a cultura (embora possua seu grau de existência autonoma). Na era das ferramentas, as filosofias eram ontologias, ou perguntas sobre a natureza do mundo (e a natureza do homem, com sua cultura, nesse mundo). A ontologia é, digamos, uma ferramenta para compreender o mundo. Já na época moderna das máquinas, a Filosofia Moderna ganhou uma inovadora fixação pela epistemologia, ou pela compreensão sobre a compreensão do mundo, ou sobre o conhecimento – mais especificamente, sobre as teorias científicas, essas máquinas de produção de ideias que produzem máquinas.

(ii) as máquinas são melhor vistas não como próteses, mas como autômatos: corpos que imitam os corpos humanos. Corpos mais fortes, duráveis e eficazes (em tarefas específicas) que os humanos. De fato, fizeram sucesso em algum momento do século XVIII francês pequenos autômatos que imitavam movimentos humanos diversos, funcionando apenas com roldanas, alavancas e outros aparatos puramente mecânicos. Um desses pequenos avatares de orgulho dos iluministas, os grandes otimistas desse potencial construtivo da capacidade teórica. Mas são apenas corpos, sem alma, que precisam da iniciativa humana para funcionar.

(iii) justamente por serem filhos grandes e caros (nos dois sentidos) do mundo da teoria, as máquinas tomaram do homem o centro da organização social. Antes um homem trabalhava com várias ferramentas, carregando-as para onde ele necessitava delas. No começo do fim da era das máquinas, elas se assentavam em algum lugar favorável (nas fábricas) e carregava vários seres humanos consigo, formando as cidades industriais. Nas fábricas, os seres humanos passaram a ser peças mais descartáveis, enquanto os mesmos humanos eram o centro vital das oficinas em que o artesão trabalhava com suas ferramentas. Isso chegou ao nível de os seres humanos serem recrutados para trabalharem como máquinas (imitando seu imitador), como peças de trabalho repetitivo em uma linha de produção. Tudo muito estranho e degradante, do ponto de vista da condição humana. Ou, citando diretamente o autor: "A segunda Revolução Industrial expulsou o homem de sua cultura, assim como a priemira o expulsou da natureza, e pro isso podemos considerar as fábricas mecanizadas uma espécie de manicômio".

Mas as coisas felizmente tomam outra cara na quarta fase, a dos aparatos eletrônicos.  Novamente, a transição é sempre suave. Aparatos eletrônicos podem ser vistas como máquinas em que operadores fazem movimentos que geram nos aparatos outros movimentos (mesmo que microscópicos, se enxergarmos os elétrons sob uma perspectiva realista). Mas esses movimentos são, em geral, indiretos: o que se quer não é o resultado mecânico da cadeia de movimentos, mas a emergência de padrões abstratos desses movimentos. Essas novas máquinas imitam mais o interior do que o exterior dos humanos: as máquinas ganham alma, e conversamos com elas usando linguagens, programando-as para tarefas específicas, fazendo perguntas e obtendo respostas. Mesmo as máquinas cujo fim é gerar movimento (digamos, uma impressora) faz isso mediada por uma alma desse tipo, obedecendo a um "imprima" dito em alguma linguagem que a máquina entenda.

O arquétipo aqui são as máquinas com muita alma e pouco corpo (digamos, computadores). Como é próprio do mundo das ideias, elas em geral não são especializadas, mas multitarefas (tão mais multitarefas quanto mais "cheias de alma" – compare o computador com um relógio de pulso). Isso libera os humanos da escravidão das máquinas monótonas. Ou, se quiser: os computadores podem, como os humanos com corpo e alma, usar ferramentas para tarefas específicas, como imprimir.

Os aparatos liberam os homens também das máquinas grandes: como os movimentos deste tipo de objeto interessam indiretamente, através de abstrações que eles representem, não há qualquer necessidade especifica de meio, modo ou escala para eles. Em particular, os movimentos de elétrons foram uma maneira particularmente compacta e maleável de fazê-lo. Assim, os aparatos eletrônicos podem ser pequenos e portáteis, como as ferramentas um dia foram, liberando-nos para criarmos, como antes, nossa própria geografia e nosso próprio ritmo.

Nessa era, a cátedra das ciências passou a ser ocupada, naturalmente, pelas ciências cognitiva, herdeira da biologia e da linguística das antigas gerações – liberando a física para especulações mais obscuras e recônditas, terras para onde se dirigiram também as antigas ontologias, no início da época das máquinas. Não é à toa que se dê o nome de "redes neurais" para os aparatos eletrônicos espertos o suficiente para aprender e ter alguma autonomia espiritual. Mas o que fará a filosofia da era dos aparatos eletrônicos é algo menos claro; as teorias são incrivelmente mais importantes para construir os aparatos, mas a filosofia desconstruída não as leva mais tão a sério. Com o que se preocupará então?

domingo, 28 de dezembro de 2008

Tolerância

sei lá, tem várias mini-reflexões que eu nem escrevo aqui pq geralmente nao considero dignos de, sozinho, estrelarem um post. Mas acho que é uma boa parar com isso e começar a postar mais idéias soltas e bobas, quase no nivel do afzipi, auehuaheh

Enfim, acho que posso começar mencionando um dos grandes lugares comuns desses tempos (daqueles a que as pessoas se referem tao enfaticamente que espanta notar q nenhuma delas pensou nas suas consequências mais radicais - acho que tem um filtro de razoabilidade (ou uma "miopia de razoabilidade") que em geral faz só filósofos e excêntricos e românticos alemães ficarem levando as coisas às últimas consequencias) sobre tolerância e aceitar as diferenças. O problema é que aceitar todos os pontos de vista, nunca querer que outras pessoas assumam algum outro, é ser inútil prás pessoas, não colaborar em nada pro crescimento delas. O extremo oposto, a completa intolerância, fundamentalismo, e tentativa de converter qualquer um que passe perto ao seu único ponto de vista, é beem mais educativo prás pessoas, mas torna a convivência razoavelmente insuportável.

Claro, como com quase tudo, deve haver um equilíbrio entre as duas posições, ou uma superposição de estados entre elas. Porque, por um lado, é interessante que suas próprias posições defensáveis sejam um tanto quanto amplas (é chato querer convencer as pessoas sempre das mesmas coisas), e por outro, reconhecer posições diferentes é inclusive útil para "converter pessoas aos seus pontos de vista defensáveis" de forma mais eficiente (sendo ainda mais educativo prás pessoas do que o fundamentalismo completo). E de qualquer forma a briga com a intolerância tem talvez mais a ver com uma forma estúpida e cega de convencimento que, mais que não-eficiente, trabalha contra seus próprios propósitos.

Uma interseção entre o conjunto de opiniões que você compreende e o conjunto de opiniões que você quer mudar parece algo bom de se ter, de qualquer forma. Mas uma coisa interessante é uma fronteira que existe para além das posições não-compreendidas e não-toleradas, que eu posso chamar de "fronteira do completamente outro": pessoas tão tão diferentes que atrazem consigo a admissão da completa ignorância sobre aquela disposição e um certo desanimo e uma certa prudência de nem tentar interferir. O que faz pensar, fazendo o caminho inverso, que toda tentativa de convencimento envolve pelo menos um modelo minimamente razoável sobre o estado da outra pessoa que se quer ver mudado.

Pois é, uma idéia solta rendeu três parágrafos médios. Eu to ficando muito verborrágico. Enfim.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Sentidos e Medições

Um outro "primitivismo" desse tipo que me intriga é um que o Jaime sugeriu uma vez, sobre os modos de conhecer a natureza que os cientistas se orgulham de usar. Eles não são nada, nada além de uma versão mais estendida dos nossos sentidos!

Ou bem a gente detecta luz, com bem mais precisão e variedade de cores que os olhos, mas luz, ou tem detectores sensíveis a pressão, como os ouvidos, ou detectores químicos, que geram reações quimicas a partir do contato com qualquer coisa. Olhando assim, isso parece muito limitado! E mostra como os nossos métodos experimentais das ciencias naturais são primitivos, nesse sentido. Se os instrumentos até o século XIV só adicionavam precisão ao que medíamos com os sentidos, os de hoje são só versões estendidas destes.

Quando será que vai aparecer algo diferente? (Certamente não nessa geração, em que as pessoas só tão preocupadas em seguir o bonde e publicar, publicar, publicar... Não conseguiram nem largar o osso da matéria e da energia escura, meu deus! esses cientistas me envergonham, como membro da humanidade, tsc)

Runas

Começar a usar o blog tb pra alguns insights sobre raízes passadas e coisas futuras. É sempre chocante enxergar alguns padrões muito permanentes em grupos humanos em geral, como eles são tão "primitivos" quanto coisas bem antigas (sem críticas), e como talvez seja diferente um dia.

Uma desas coisas é o nosso padrão escrito, o romano, que é essencialmente como o padrão rúnico: conjuntos de traços retos e simples que representam sons específicos, configurações específicas da boca. Uma sequencia de runas representa uma sequencia de sons que deve ser reproduzida rapidamente para carregar significados para as nossas vidas mentais e pra induzir ações no mundo material.

(Quem diria que algum animal ia desenvolver essa técnica muscular avançada de articular e rearticular rapidamente a saída do sistema respiratório pra produzir um padrão bem complexo de sons que carrega um monte de significado. É sempre a primeira coisa q eu penso quando ouço uma conversa em uma língua desconhecida.)

Mas voltando, o nosso padrão escrito ainda é esse! O mesmo, não mudou nada! É verdade que existem infinitas versões estilizadas dessas runas (as diferentes tipografias) pra combinar com coisas diferente e ficar bonitinho, mas isso é só as runas enquanto arte decorativa. Aliás, eu nem chamo isso de linguagem escrita - porque não passa da reprodução escrita do que é a nossa lingua oral. O ocidente só tem língua oral! Mesmo as expressões poéticas são todas assim: poesia é algo para ser declamado - e os concretistas foram os primeiros a fazer algum avanço no sentido oposto. Os chineses sim, eles têm uma linguagem escrita de verdade, com símbolos escritos que carregam idéias, que podem estar associados a diversas linguas orais - ou mesmo a nenhuma.

Mas enfim, será q vamos abandonar esse padrão rúnico de escrita e de comunicação? A partir das ultimas duas décadas, parece cada vez mais claro que os filmes e outras multimídias vieram com grande potencial para competir com os livros como forma de guardar a nossa sabedoria mais erudita (ou como diz a minha mae adotiva das humanidades, os historiadores das novas gerações precisam saber fazer cinema).

No futuro a comunicação não-oral vai ser feita através de bolhas brilhantes e coloridas.