sábado, 6 de abril de 2013

Como ser criativo (John Cleese)


Não costumo postar videos (nos últimos três anos, eu não costumava postar), mas esse é do John Cleese, um dos atores (e roteiristas) do Monty Python, o avatar do humor inglês nonsense. Existem milhares de sketches deles que eu amo e acho brilhantes, mas hoje quero postar um video sério (" ") do John Cleese, uma palestra dele chamada How to be creative:



A forma da palestra é bizarra e nonsensicamente boa, com piadas absolutamente imbecis introduzidas no meio da fala em momentos meio aleatórios (a partir de algum momento, começam a ser usadas para marcar a separação entre as partes da palestra). Além disso, o texto é muito bom, dialoga com um monte de ideias interessantes que flutuam por aí. Quero destacar algumas que me ocorreram:


  1. O mote inicial da primeira parte da palestra [no video, a partir de 6:30] é a distinção dele entre os modos aberto (relaxado, expansivo, inútil, contemplativo, humoroso e criativo) e fechado (ativo, tenso, impaciente, excitante, cheio de propósito) de trabalho humano. Lembra muito a dinâmica de Crise e Paradigma que o Thomas Kuhn usa como estrutura para a história da ciência. (eu pessoalmente não acredito em estruturas históricas, minhas religião é outra; mas preciso reconhecer que a noção de "paradigma" do Kuhn foi a ideia mais popular que a comunidade de história da ciência deixou para o resto da humanidade, até agora).
     
  2. A aproximação entre criatividade e jogo, no conceito de 'jogo' do Johan Huizinga: o homem é um jogador (homo ludens) tanto quanto é um sabedor (homo sapiens) e um fazedor (homo faber). que os historiadores também usam para descrever processos históricos. A noção de jogo (não só como cálculos de sorte e estratégia como os matemáticos costumam encarar, mas com a dimensão lúdica) acabou desempenhando um papel interessante na história da política e da cultura mas, principalmente, na história dos conceitos (um exemplo com Gumbrecht).
        
  3. A aproximação entre criatividade e meditação, no sentido de que ambos precisam de ócio, de se isolar em um espaço e em um tempo entre paredes, aquietar a mente e eliminar os ruídos e os hábitos, para deixar, assim, que as coisas do fundo emerjam. Também no sentido de que ambos levam a estados "transcendentes", no sentido de "deslocados do fluxo ordinário das coisas" (mesmo que dure apenas uma fração de segundos). Também o jogo, pro Huizinga, funciona porque acontece dentro de parênteses no resto da vida.
        
  4. O destaque do humor como maneira rápida de atingir a iluminação. É claro que ele está falando do tipo de humor nonsense que ele praticava enquanto membro e roteirista do Monty Python, que cria conexões inesperadas e, com isso, nos faz olhar as coisas por ângulos novos (que é talvez a ideia de humor mais próxima do nosso conceito de criatividade). É precisamente a estratégia que os mestres budistas da linhagem zen usam com suas historinhas bizarramente sem sentido (ou outras atitudes ainda mais sem sentido, como gritar e bater em discípulos como resposta a uma pergunta), com o objetivo de trazer a iluminação no sentido meditativo. É também o que fazem os discordianos (que se definem como "zen para ocidentais"), como neste meu exemplo preferido. Há pelo menos um textinho do Rubem Alves ("Koan", no livro sobre a Escola da Ponte) que defende que o método budista deveria ser estendido a toda educação formal (porque, como ele diz, a educação tem que servir para "deseducar", porque só desaprendendo se aprende algo de verdade).
        
  5. A técnica de ficar saltando entre coisas completamente sem sentido até parar em algo que faz sentido de um jeito novo (a versão psicodélica do método de tentativa-e-erro). Conheço alguns grupos que usam isso ostensivamente em processos criativos (um deles um grupo de que faço parte, o CCD). É interessante que ele opõe isso ao pensamento lógico ordenado – modo em que, ao contrário do que ele parece insinuar, nem os cientistas (como ilustrado bem pelos inúmeros exemplos do Lakatos e do Feyerabend) nem os matemáticos (que usualmente operam no terceiro estágio) operam para criar. A necessidade de passos seguros tem mais a ver com o modo fechado de operar, ou ainda com um terceiro momento, o de arrumar a casa (transformar o resultado de um brainstorm em algo limpinho que se possa exibir e usar).

Poser

Eu estava por aqui ouvindo minha nova banda brasileira preferida, Mohandas. Em particular, a música "Saudade do Pará". Como definiu um dos integrantes, trata-se de um tipo de saudade de algo que não se viveu. De fato, todos os integrantes são cariocas da gema, de classe média e, aparentemente, sem nenhuma relação familiar mais direta com o Norte do Brasil.

Eu também não tenho qualquer relação mais direta com a cultura do Pará, e para ser sincero sempre achei bem bregas (ha!) as músicas de lá – mais do que não me identificar, me desidentifico com elas. Mas a música do Mohandas mudou isso, me fez enxergar um tipo de beleza poética que eu nunca tinha visto, porque ficava escondida por trás de uma nuvem de estranheza que me afastava daquilo. Mas agora que vejo, começo a gostar também das músicas realmente paraenses, aquelas mesmas estranhas. E é assim que me torno um poser de forró.

O mesmo acontece por aí com tribos de punks, etc., ou, para ficar no mesmo contexto, dos jovenzinhos sambistas da Zona Sul do Rio (dentre os quais eu parcialmente me incluo). Aponta-se comumente que esses jovens "não sabem o que é samba", nunca subiram num morro (dos antigos, porque muita gente não sabe, mas nos morros de hoje não se faz mais samba, se faz funk), nunca foram malandros duros e sem dinheiro mas que davam qualquer coisa por uma bunda rebolando ou uma dose de cachaça (uma imagem um tanto romantizada, porque eu também não faço ideia do que era ser um malandro). Mas há algo no samba que os inspira, que os leva até ele, algo que foi peneirado e mediado, por uma tradição que talvez tenha começado com a bossa nova (que fez um samba mais leve, com harmonias mais complicadas, mais fácil de difundir através de outras camadas e grupos sociais). Tom e Chico não eram exatamente meninos de morro, afinal. Mas assim, com pessoas vivendo entre dois mundos, houve mediação, houve uma ponte entre dois mundos, houve troca e inspiração através.

Houve a formação dos posers de samba, aqueles que nunca viveram nada parecido com a realidade da qual aquelas músicas emergiam, que no entanto se inspiravam por alguma coisa ali, que não necessariamente entendiam, mas que fazia algum sentido diferente quando projetado no outro mundo. E que cultivaram essa coisa, referindo-se às raízes mas fazendo algo muito diferente e, ao mesmo tempo, herdeiro, cultuante, reavivador daquilo que era de outro. Algo assim bem estranho, como o tango na Finlândia.

Num mundo cheio de incomensurabilidades, é reconfortante saber que a mediação é possível, que as pessoas, sendo posers, são capazes de criar.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Três estágios da Matemática


As pessoas têm três níveis de contato com a Matemática ou, temporalmente falando, elas aprendem matemática passando por três estágios. O blog do Terence Tao as chama, de forma sem graça, de pré-formal, formal e pós-formal. O Elon Lages Lima, em um artiguinho legal*, chama de conceituação, manipulação e aplicação. Eu os descreveria assim:

1. Uso intuitivo

Existe um nível em que as ideias matemáticas são usadas sem muita preocupação, de forma informal e ligada a conceitos bastante intuitivos. É o que acontece quando dividimos a conta de um restaurante ou jogamos algum jogo de estratégia (como xadrez). Essa fase é bastante trivial e sua demonstração é deixada para o leitor.

2. Formalismo

O movimento do uso costuma trazer, algum tempo depois, o movimento da teorização.  É assim que, ao longo da escola, um aluno vai sendo crescentemente apresentado a conceitos formais e a relações de necessidade lógica, de forma que as noções intuitivas vão se tornando mais organizadas, inter-relacionadas e cheias de consequências. Esse momento inclui a parte formal da Conceituação (que, em boa parte, é motivada pelos conceitos intuitivos) e também a Manipulação, o domínio operacional do formalismo.

Na vida escolar, nenhuma matéria representa melhor a formalização e a necessidade de manipulação que a álgebra. Para um estudante de matemática, ciências naturais ou engenharia,  o ápice da formalização costuma acontecer nos cursos de Análise na Reta, que é quando, pela primeira vez nos cursos regulares, parte-se apenas de conceitos muito elementares (conjuntos e sequências) e constrói-se, seguindo apenas passos dedutivos, um belo edifício (os números, as funções, as derivadas e integrais). É também onde ganham uma importância muito clara as demonstrações e a necessidade de cada conceito ter uma compreensão estritamente formal. Pode-se argumentar que esse é o modo, por excelência, de organização da matemática. É bonito, elegante, e quase todo texto matemático é escrito dessa forma dedutiva.

Quase todo mundo que passou pela escola enxerga, em algum grau, a a matemática como um corpo de conhecimento formal. Mas a maioria não acha isso particularmente bonito. A principal razão para isso é, provavelmente, o foco excessivo, no ensino formal, na  manipulação (como denunciado pelo famoso Lamento de Lockhart). Basta lembrar dos inúmeros exercícios com equações, polinômios e matrizes que aterrorizam estudantes de ensino médio, ou do vazio existencial dos cálculos de integrais de funções absolutamente irrelevantes nos primeiros semestres da faculdade.

A manipulação é parte essencial do aprendizado de matemática, disciplina em que funciona exatamente como na música ou nos esportes. Quando se aprende a tocar um instrumento musical, por exemplo, é necessário passar por inúmeros exercícios repetitivos, solfejos, escalas e outros mais, até que os passos elementares tenham se automatizado e, com isso, saiam do foco dos pensamentos, permitindo que novas ideias apareçam e que se possa concentrar no essencial.  Só muito depois dos torturantes exercícios iniciais é que você pode começar a treinar as músicas de suas bandas preferidas. Assim, por paradoxal que possa parecer, o treino repetitivo é exatamente o que se torna libertador.

Ao contrário da música, entretanto, o próximo estágio da matemática não costuma aparecer nos horizontes das pessoas. Afinal, música é muito mais inserida na cultura geral que a matemática (no melhor estilo das duas culturas do C. P. Snow). Além disso, o foco do ensino na manipulação acaba ocultando o que viria depois. Depois de anos de exercícios repetitivos sem nenhuma recompensa, as pessoas começam a acreditar que a matemática é árida e sem alma, bom para computadores mas ruim para seres humanos. Por outro lado, há quem veja as manipulações como algo sem alma de fato, mas divertido, bom para passar o tempo. Esse é um dos bons motivos para se ensinar matemática muito cedo na escola, na época em que as crianças aceitam brincar com qualquer brinquedo novo (de fato, é a idade em que as crianças aceitam aprender a tabuada, as conjugações verbais e um monte de outros pacotes de memorização bruta). É também um motivo pelo qual aprender um instrumento ou uma língua nova é mais fácil quando se é criança.

3. Pós-formal / Aplicação

O terceiro nível é aquele para o qual o formalismo existe: alimentar e enriquecer as ideias. Enquanto o segundo nível traz ordem e exatidão, o terceiro se reencontra com a criatividade e a imaginação. De fato, o uso intuitivo (primeiro nível) nada mais é que um nível pós-formal de um formalismo que se aprendeu parcialmente mas já se esqueceu (o simples ato de fazer uma conta em um bar envolve conhecimentos aritméticos aprendidos duramente durante os primeiros anos escolares, que se tornaram "informais").

Esse nível é chamado pelo Elon de "aplicação". Essa aplicação não deve ser pensada apenas no sentido das "ciências aplicadas"; ele inclui, de fato, aplicações em situações do mundo real (exigindo a habilidade adicional da modelagem: capturar características essenciais de um fenômeno complexo, para descrevê-lo formalmente e extrair consequências dedutíveis), mas refere-se principalmente à aplicação dos conceitos e do formalismo aos problemas de matemática.

Os problemas de matemática, no sentido "puro" do termo, existem desde muito tempo e são tão tradicionais quanto difundidos. Os pitagóricos da Grécia Antiga se divertiam com eles, os japoneses penduravam plaquinhas de madeira com problemas de matemática na porta dos templos. Resolver problemas é uma atividade divertida, criativa e cheia de imaginação, como pode atestar qualquer estudante que já tenha participado de uma olimpíada de matemática.

Muitos matemáticos concordam que o que há de mais importante na matemática são as ideias. De fato, a parte importante do trabalho de um matemático é ter insights e construir coisas novas. Trata-se de um trabalho criativo, não de um processo enfadonho de ficar seguindo passos lógicos. Talvez seja por isso que, como Lockhart defende, a geometria devesse ocupar lugar proeminente no ensino de matemática: por exigir pouca manipulação abstrata e recorrer sempre à concretude das pistas visuais, ela evidencia mais as ideias e a beleza por trás do formal.

E no entanto o formalismo (ou melhor, as estruturas) é o que caracteriza boa parte da beleza da matemática. Contudo, ao contrário do que se pode pensar ao se ter uma aula de lógica aristotélica, o formalismo não participa como um guia para o pensamento; em vez disso, funciona como uma "resistência", um conjunto de dificuldades que o matemático precisa enfrentar ("essa ideia é boa, agora vamos ver se ela funciona") para dar a suas ideias toda sua plenitude. De fato, partes importantes de uma ideia nascem no processo de formalização da mesma -- como o "por que" delas, isto é, as relações precisas e detalhadas da ideia com suas antecessoras, ou o lugar dela no grande edifício do qual ela faz parte.

Algo parecido acontece com as ciências naturais. Há algum tempo, os epistemólogos concordam que os cientistas não fazem ciência seguindo qualquer tipo de "método científico" (retome-se o sentido original de 'método' como 'caminho'); os experimentos não são guias, mas uma resistência às ideias, um tipo de restrição auto-imposta que, como nos jogos, impede soluções fáceis e, por isso mesmo, estimula a criação de ideias melhores.

A situação é diferente no que tange à apresentação das ideias, que lembra a distinção clássica de Imre Lákatos entre "contexto de descoberta" e "contexto de apresentação": ao apresentar suas ideias, o cientista costuma apresentar sua teoria de forma ordenada, lógica, e como se fosse uma consequência natural de experimentos. Da mesma forma que os matemáticos apresentam suas ideias de forma dedutiva e completamente formal. Faz sentido: como todo designer sabe, apresentar ideias traz necessidades especiais (quando quero aprender uma ideia nova, não quero saber todo o caminho tortuoso que levou alguém a formulá-la); lido inocentemente, contudo, isso esconde um tesouro criativo que só quem já resolveu problemas abstratos sabe do que se trata.

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* "Conceituação, manipulação, aplicações", do livro "Matemática e Ensino", Elon Lages Lima. Sociedade Brasileira de Matemática, 2001.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Ferramentas, máquinas e aparatos eletrônicos

Comecei a ler um filósofo tcheco, Vilém Flusser, tido como um dos poucos filósofos a abordar o lugar do designer no mundo dos homens. No livro que eu estou lendo ("O Mundo Codificado", ed. Cosac Naify), que na verdade é uma coleção de mini-artigos, há uma porção de ideias interessantes. Uma delas é uma divisão da história da relação entre o homem e as coisas em quatro fases:

Na primeira, há a exploração do mundo com a "mão nua",  quando o homem explora, de forma direta e imediata, o mundo externo a si. Trata-se de uma construção teórica já que, como o próprio livro menciona, as ferramentas existem há mais tempo que o homo sapiens sapiens.

A segunda é a das ferramentas, que funcionam como uma extensão e próteses das mãos. As informações herdadas se tornam cada vez menos relevantes que as aprendidas. O contato com o mundo passa a ser mediado (o homem cerca-se de suas ferramentas, e de cultura) e as coisas passam a ser cada vez menos colhidas e mais construídas.

A terceira é a das máquinas. É claro que a transição entre as fases é suave e não é possível classificar rigidamente os objetos. Mas uma máquina arquetípica é diferente de uma ferramenta arquetípica em alguns sentidos importantes:

(i) as ferramentas são construídas empiricamente, a partir de um conhecimento razoavelmente direto de como funcionam os materiais e que trabalho precisa ser realizado sobre eles. As máquinas, por outro lado, são construidas por teorias de como as coisas funcionam. A era das Máquinas é, portanto, a era da Ciência Moderna (leia-se, da física, especialmente da mecânica). E, da mesma forma que a ciência existe para a tecnologia (embora possua seu grau de existência autônoma), a filosofia existe para a sociedade e a cultura (embora possua seu grau de existência autonoma). Na era das ferramentas, as filosofias eram ontologias, ou perguntas sobre a natureza do mundo (e a natureza do homem, com sua cultura, nesse mundo). A ontologia é, digamos, uma ferramenta para compreender o mundo. Já na época moderna das máquinas, a Filosofia Moderna ganhou uma inovadora fixação pela epistemologia, ou pela compreensão sobre a compreensão do mundo, ou sobre o conhecimento – mais especificamente, sobre as teorias científicas, essas máquinas de produção de ideias que produzem máquinas.

(ii) as máquinas são melhor vistas não como próteses, mas como autômatos: corpos que imitam os corpos humanos. Corpos mais fortes, duráveis e eficazes (em tarefas específicas) que os humanos. De fato, fizeram sucesso em algum momento do século XVIII francês pequenos autômatos que imitavam movimentos humanos diversos, funcionando apenas com roldanas, alavancas e outros aparatos puramente mecânicos. Um desses pequenos avatares de orgulho dos iluministas, os grandes otimistas desse potencial construtivo da capacidade teórica. Mas são apenas corpos, sem alma, que precisam da iniciativa humana para funcionar.

(iii) justamente por serem filhos grandes e caros (nos dois sentidos) do mundo da teoria, as máquinas tomaram do homem o centro da organização social. Antes um homem trabalhava com várias ferramentas, carregando-as para onde ele necessitava delas. No começo do fim da era das máquinas, elas se assentavam em algum lugar favorável (nas fábricas) e carregava vários seres humanos consigo, formando as cidades industriais. Nas fábricas, os seres humanos passaram a ser peças mais descartáveis, enquanto os mesmos humanos eram o centro vital das oficinas em que o artesão trabalhava com suas ferramentas. Isso chegou ao nível de os seres humanos serem recrutados para trabalharem como máquinas (imitando seu imitador), como peças de trabalho repetitivo em uma linha de produção. Tudo muito estranho e degradante, do ponto de vista da condição humana. Ou, citando diretamente o autor: "A segunda Revolução Industrial expulsou o homem de sua cultura, assim como a priemira o expulsou da natureza, e pro isso podemos considerar as fábricas mecanizadas uma espécie de manicômio".

Mas as coisas felizmente tomam outra cara na quarta fase, a dos aparatos eletrônicos.  Novamente, a transição é sempre suave. Aparatos eletrônicos podem ser vistas como máquinas em que operadores fazem movimentos que geram nos aparatos outros movimentos (mesmo que microscópicos, se enxergarmos os elétrons sob uma perspectiva realista). Mas esses movimentos são, em geral, indiretos: o que se quer não é o resultado mecânico da cadeia de movimentos, mas a emergência de padrões abstratos desses movimentos. Essas novas máquinas imitam mais o interior do que o exterior dos humanos: as máquinas ganham alma, e conversamos com elas usando linguagens, programando-as para tarefas específicas, fazendo perguntas e obtendo respostas. Mesmo as máquinas cujo fim é gerar movimento (digamos, uma impressora) faz isso mediada por uma alma desse tipo, obedecendo a um "imprima" dito em alguma linguagem que a máquina entenda.

O arquétipo aqui são as máquinas com muita alma e pouco corpo (digamos, computadores). Como é próprio do mundo das ideias, elas em geral não são especializadas, mas multitarefas (tão mais multitarefas quanto mais "cheias de alma" – compare o computador com um relógio de pulso). Isso libera os humanos da escravidão das máquinas monótonas. Ou, se quiser: os computadores podem, como os humanos com corpo e alma, usar ferramentas para tarefas específicas, como imprimir.

Os aparatos liberam os homens também das máquinas grandes: como os movimentos deste tipo de objeto interessam indiretamente, através de abstrações que eles representem, não há qualquer necessidade especifica de meio, modo ou escala para eles. Em particular, os movimentos de elétrons foram uma maneira particularmente compacta e maleável de fazê-lo. Assim, os aparatos eletrônicos podem ser pequenos e portáteis, como as ferramentas um dia foram, liberando-nos para criarmos, como antes, nossa própria geografia e nosso próprio ritmo.

Nessa era, a cátedra das ciências passou a ser ocupada, naturalmente, pelas ciências cognitiva, herdeira da biologia e da linguística das antigas gerações – liberando a física para especulações mais obscuras e recônditas, terras para onde se dirigiram também as antigas ontologias, no início da época das máquinas. Não é à toa que se dê o nome de "redes neurais" para os aparatos eletrônicos espertos o suficiente para aprender e ter alguma autonomia espiritual. Mas o que fará a filosofia da era dos aparatos eletrônicos é algo menos claro; as teorias são incrivelmente mais importantes para construir os aparatos, mas a filosofia desconstruída não as leva mais tão a sério. Com o que se preocupará então?

domingo, 2 de dezembro de 2012

Linguagem

Linguagem foi algo inventado para conectar-se com espíritos, isto é, com aquilo que não é alcançavel pelos sentidos. É claro que a linguagem usa os sentidos, não haveria outra maneira; usa-os, contudo, apenas como via. As palavras, ou partículas de uma linguagem, servem como carros que vestem as palavras no frio do mundo exterior (sim, as pessoas se vestem com carros) e as transportam por aí.

Os espíritos, aqui, incluem os computadores. Mas para amenizar o incômodo que essa frase sugere, digo logo que objetos, computadores, seres etc. podem ser ordenados pelo quanto eles resistem à vontade alheia (ou seja, por quão autônomos eles são). A maioria dos computadores pessoais resiste muito pouco, fazendo basicamente o que mandamos (é claro que, com computadores e com pessoas, a falta de domínio da linguagem do outro é, por si, uma resistência enorme). Mas há computadores muito mais autônomos (essa coisa que chamam, em computação, de "redes neurais") e também há cachorros autônomos e seres humanos, sobretudo. Mas seres humanos não são testados tanto pela sua resistência à vontade de outros seres humanos, mas porque não testamos tanto; consideramos que Autonomia é um valor fundamental das relações humanas e, por isso, evitamos forçar a barra. Mas o passado (e as ravinas da sociedade presente) tem algumas histórias tristes sobre isso.

A matéria também tem graus diferentes de resistência à vontade. As ferramentas, como os animais domésticos, são versões significativamente mais irresistentes delas. Mas toda a matéria tem resistência, o que explica o esforço que fazemos contra ela. Em um campo um pouco diferente, aparece sob o mesmo conceito: a "resistência"  que ela oferece, através dos experimentos, à livre teorização nas ciências naturais (Galison). 




Arquitetura de ideias

Quatro anos  depois, eu queria dialogar com o post das minhas auto-identidades.

Em primeiro lugar, me considero um homem das ideias. Viver com as ideias me traz mais felicidade do que viver com as coisas ou viver com as pessoas (embora haja muitas ideias na convivência com as pessoas e com as coisas – na medida em que isso me estimula às interações sociais, eu me sinto um vampiro).Sou, como alguns copacabanenses que conheço, um protótipo do que se pode imaginar que fossem os idealistas alemães do século XIX. Não exatamente isso, porque os idealistas alemães já foram. Eles já tiveram a chance de organizar o mundo dos homens, que é o que expõe suas fraquezas, faz nascer as suas críticas, e leva a novas ordenações. Como um cidadão do XXI, não pude, responsavelmente, ser imune às críticas ao idealismo: a pluralidade, os relativismos e os sentidos.

Mas os sentidos. A vida sensorial sempre foi para mim muito atraente, bem mais que a vida verbal. Com as palavras, tenho alguma relação de amor e ódio (a ser possivelmente explorada em próximos posts). Mas eu diria que a vida sensorial me interessa principalmente em três sentidos:

  • Na medida em que os estímulos sensoriais geram novas ideias e, algumas vezes (raramente), novas sentenças. 
  • Como uma consequência de algumas séries de ideias, que apontam (mas, claro, não presentificam) para os sentidos como forma fundamental de perceber o mundo. Aqui dá pra citar a minha genealogia *: historicismo, existencialismo, hermenêutica e após: Heiddeger, Gadamer e Gumbrecht.  
  • Como uma forma de equilibrar a vida com as ideias e torná-la mais, bem, possível de viver. É o que herdei do taoísmo, de seus filhos e seus primos distantes (tai chi chuan, yoga, etc.): com isso, o espírito pode sair do turbilhão laranja de ideias e fluir para a ponta dos dedos. Ou, se preferir, a mente e as ideias se tornarem difusas pelo corpo. Isso impede que a cabeça, esse grande ringue ou bordel de ideias, exploda. Ok, mas mais que isso: faz elas interagirem com uma riqueza nova e especial (objeto de futuros posts).
Em particular, as ideias (e essas interferências da variedade dos sentidos) me leva a ter uma relação especial com as ideias de ordem e caos. Principalmente a fronteira entre elas, as travessias de um para outro. No mundo das ideias, meu passatempo preferido é a arquitetura de ideias: como juntá-las e construir com elas. Construir castelos de areia, que o vento leva e você refaz de outro jeito. É o que se faz (ou o que se faria, mas...) na vida intelectual acadêmica. 

Ênfase na areia. Eu não sou um homem da ordem (qualquer um que tenha passado mais de 15 minutos comigo sabe disso :P). Não sou como os meus colegas da matemática, uma das minhas fontes de formação. Eu sempre disse que, se matemática é poesia, eu sou um linguista. Porque eu sou um homem da ordem parcial. Gosto de ter nas mãos o que eu não posso segurar, gosto de pegar isso e moldar. Ou, conversamente, ver onde o seguro, sutilmente, transborda: chupar o caos dos poros da ordem (é o que me motiva aos temas de tradições intelectuais alternativas/ outsiders, superposições de ordens de épocas diferentes na sociedade ou no tecido urbano, e diversas outras formas de olhar a desordem, sempre existente mas às vezes bem escondida, nas bordas dos sistemas ordenados). Os matemáticos viajam e constroem ao longo dos reinos da ordem. Mas sem o peso do que não pode ser abraçado, não tem graça pra mim. A verdade é essa: matemática me deixa entediado. 

(É um pouco por isso que a física como vida intelectual deixou de ser uma opção para mim, no longínquo passado. No início, construir castelos de ideias usando dados experimentais como vigas foi uma ideia promissora. Mas os físicos são, hoje, muito mais chatos do que já foram. E presunçosos. E não muito tolerantes.) 

A ordem parcial foi também o que me atraiu de volta para a linguística, através da via olímpica. Um problema de linguística é, essencialmente, uma maneira aberta de se construir ordens parciais para agrupar dados linguísticos de muitas cores e texturas. Uma fonte ilimitada de prazer e diversão, e que pode ser reconciliada com meu interesse linguístico mais antigo: a tubulação dos prédios da arquitetura de ideias é a arquitetura dos conceitos (e, em particular, dos pedaços de semântica). 

Classicamente, isso me faria ir parar na filosofia? Provavelmente na filosofia natural. Mas outra escola me comprou, e minha linhagem foi feita em outro lugar: na história das ideias. Culpa dos supra- e antecitados historicismo (as limitações do tempo), existencialismo (as limitações da existência particular e contingente) e hermenêutica (as limitações das linguagens, as públicas e as mentais). E do taoísmo e da pós-hermenêutica, com as limitações do corpo, da matéria e do que se presentifica.



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* É interessante que, como pode parecer, em alguns cenários intelectuais (como o da historiografia francesa)  as pessoas preferem se agrupar sincronicamente em "gerações" que se suscedem (Annales, Nova História, Nova Nova História, etc. – algo que, quatro anos atrás, eu gostava de chamar de "Síndrome de Revolução Francesa") e em outros (como o das humanidades na Alemanha), elas preferem um agrupamento diacrônico [não gosto dessa palavra], em "linhagens"  que coexistem ao longo do tempo (e procuram traçar seus pais, avós, bisavós, etc. da vida intelectual).

Ressurectio

Quatro anos depois, resolvi ressuscitar este blog. Em um novo momento de estabilidade na vida, relaxo um pouco no que estou fazendo, ou tenho feito, e começo a me reencontrar, ou reencontrar quem eu quero ser. Esses pedaços com os quais eu esbarro, fragmentos de ideias, que podem chocar boas construções, precisam ser depositados em algum lugar. Um blog é interessante para isso, porque será uma casa no grande campo das ideias, que outras pessoas eventualmente podem achar, e chocar suas próprias construções.

Talvez eu ressuscite também o blog roxo, o gêmeo poético deste.