segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Princípio da Multiplicidade

Tem muita gente interessante fazendo muita coisa interessante por aí.
Ou: buscar sempre as cores locais.
Ou: não acreditar demais nos padrões.
Ou: o melhor dos mundos possíveis é o mais variado.
Ou: (a lei máxima dos românticos): Sê tu mesmo, isto é, sê único!

(Isso funciona também como princípio de trabalho, prás Humanidades; não considerar coletividades nunca como uniformes. Ou: qualquer agrupamento de pessoas incluem sempre opiniões ligeiramente diferentes, e ações ligeiramente diferentes.)

Ou, pra dar ao meu post mais autoridade e poesia alheias, um pouco de Schleiermacher (retirado do capítulo dos romanticos do Lovejoy):

Como posso evitar apenas regozijar-me na novidade e na variedade, que não confirma e não de novas e sempre diferentes maneiras a verdade de que estou de posse? (...) Há ciências sem cujo conhecimento minha visão do mundo nunca será completa. Há ainda muitas formas de humanidade, épocas e povos que não conheço melhor que o homem comum - épocas e povos em cuja natureza e modo de pensar minha imaginação não penetrou de sua maneira própria e que não ocupam nenhum lugar definitivo e próprio deles na minha imagem do desenvolvimento da espécie. Muitas atividades que não têm lugar na minha própria natureza não as compreendo e careço frequentemente de um entendimento própria das relações delas com aquel Todo que mostra sua grandeza e beleza na humanidade como um todo. Desse todo, hei de, parte por parte e parte
com parte, tomar posse; a mais bela expectativa abre-se diante de mim. Quantas naturezas nobres, totalmente diferentes da minha, que a humanidade moldou como elementos de si mesma, vejo ao alcance da mão!
Ou, citando o próprio Lovejoy citando outro: "Eis uma cruel determinação, como Emerson disse de Margaret Fuller, a de comer este enorme universo!"

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Princípio do Improviso

(Aproveitando-me de que isso aqui não é muito frequentado, e pegando carona nesse momento magico de conversão ao Erisianismo, vou usar esse blog aqui pra postar alguns princípios mais genéricos e abstratos meus. Talvez eu funda isso com o Chu Biúnil mais tarde)

Nunca escolha um caminho até que você possa efetivamente andar por ele.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Modelos Urbanos

Uma reflexão antiga mas que, como refluiu hoje na minha cabeça, resolvi escrever.

É engraçado que Rio de Janeiro e São Paulo têm padrões de urbanização bem distintos - especialmente no que diz respeito à relação com o relevo.

O Rio de Janeiro tem duas inclinações possíveis: plano, onde vivem todas as pessoas de bem (e muitas do mal também) e muito inclinado, onde tem floresta e/ou favela. A distinção entre Cidade e Favela é auto-evidente para qualquer carioca; olhando de cima, é perfeitamente possivel desenhar uma linha precisa delimitando as áreas das duas coisas.

Já São Paulo é muito mais democrática a esse respeito: todas as inclinações são ocupadas por todo tipo de cidade, indistintamente. O mar de morros é coberto pelo mar da urbe. (Nunca vai deixar de me espantar o fato de, 150 anos atrás, a região da atual Av. Paulista ser uma serra díficil de transpor, atravessada por estradas em seus pontos mais baixos, e que separava a Vila de São Paulo da Vila de Pinheiros).

Em São Paulo, também, bairros ricos, médios e pobres se distribuem como um malhado pela cidade, embora com uma leve mais perceptível curva de declive: os bairros mais ricos, em geral, ficam perto do centro e os bairros mais pobres, em geral, nas extremidades. O Rio, por outro lado, é uma cidade bipolar: há a Zona Sul, em que ficam todas as pessoas que tem dinheiro (e muitas que não tem tanto), todos os bairros bonitos, interessantes, todas as praias, os cartoes postais, cada um dos símbolos pelos quais o Rio de Janeiro é famoso, e há o Resto da Cidade, que concentra 90% da área da cidade, uma porcentagem similar de população, e não tem mais nada. O centro, então, espremido no extremo leste da cidade entre floresta e baía, é a zona de transição entre essas duas regiões.

Mas o mais engraçado disso tudo é que esses dois modelos se replicam! Boa parte das cidades ao longo da costa fluminense segue o modelo carioca!: ocupação plana, privilégio da zona próxima do mar, supervalorização desta e esquecimento de toooodo o resto (tratado então como periferia). Cidades do interior de São Paulo, por outro lado, todas nao se importam em passar por cima das elevações, ter ladeiras, essas coisas; são todas globalmente homogeneas em termos de riqueza (nao homogeneas, na verdade, mas nao bipolares com certeza), centradas eventualmente em uma igreja.

Gostaria de fazer uma comparação tríplice com as cidades mineiras, mas preciso passar mais tempo nelas antes disso.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Fones

Eu tava reparando como é grande hoje a quantidade de pessoas que viajam de onibus com fones de ouvindo, ouvindo suas próprias musicas, as musicas q tocam suas almas (voce está ouvindo 98,9 FM...). É interessante essa coisa de poder carregar consigo as musicas de q vc gosta. Mais interessante é como as pessoas podem se dar ao luxo de abrir mao de um sentido inteiro, de um canal inteiro de contato com o mundo exterior, e reverter o uso desse canal para permanecer mergulhado no interior de si mesmas, conforme transitam pelo mundo mudo (claro que nao é mudo, que tem muita coisa pra ser ouvida nele, mas na maioria das vezes acaba virando só ruído branco).

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Um mundo, um sonho

Acabou de terminar a Abertura dos Jogos Olímpicos de 2008. To semi-paralisado até agora. É a primeira vez que eu me emociono de verdade com algum evento público.

Sabemos o poder simbólico que as Olimpíadas têm no nosso mundo. Nesses dois séculos tão belicosos, tão competitivos para os países ocidentais (o século XIX que começou com Napoleão, foi atravessado pelas invenção das guerras nacionalistas, e desembocou num século com duas guerras mundiais e uma guerra fria que partiu o mundo em duas fatias), foi uma das melhores idéias enfiar fundo a mão nas raízes comuns do ocidente, e recuperar o maior símbolo de convivência pacífica entre diferentes. O evento que pausou a Guerra do Peloponeso; em que todas as cidades pararam o curso de suas evoluções políticas para ver o Fogo que Prometeu roubou dos deuses sendo aceso, para que cada ser humano não quisesse mostrar nada ali além da sua própria excelência.

As Olimpíadas na sua versão moderna foram uma promessa de paz que nunca se cumpriu. Mas foi também uma promessa de mundo. O Ocidente podia então se enxergar como a Grécia: por mais diferentes que fossem as cidades, estavam ali para celebrar sua herança comum, estando certos de estarem produzindo o melhor do fato de serem humanos. Talvez a unica manifestação de sensatez num mundo em que as nações ocidentais se destruiam mutuamente em nome de mais e mais pedaços do resto do mundo. Eles ocidentalizaram o mundo, de fato, levando a todos seus ideais, sua visão, mas levando também, sem perceber, esse que pode ser chamado de ideal olímpico.

O traumático século XX acabou com a queda do muro que dividia, na capital do centro da europa, as duas metades ocidentais do planeta. As duas olimpíadas seguintes foram organizadas em cidades bem pacíficas e distantes do centro dos acontecimentos, enquanto o resto do mundo terminava de se reconstruir. Em 2004 as Olimpíadas voltaram para o seu berço, como que para repensar o que foi a história do ocidente e do mundo ocidentalizado; uma volta às origens para recomeçar em outra direção. Foi em Atenas, símbolo máximo da tradição que refez o mundo, que os gregos entregaram o Fogo dos Deuses aos chineses, civilização igualmente antiga, mas guardando a promessa do novo.

Foram quatro anos de espera muito ansiosa. Mas atingimos o turning point; a ocidentalização do mundo finalmente acabou. Começamos a globalização efetiva. Desfilando todas as suas maiores conquistas culturais, físicas, intelectuais e tecnológicas, a china finalmente conseguiu do ocidente o respeito que nunca havia tido. Finalmente outra voz se ergue no mundo, num mundo que agora tem muitas vozes, muitas cores. O fogo agora está nas mãos do homem chines, que salta do centro das nações, correndo, tocando o ar com os pés com a leveza típica dos heróis chineses, desenrolando atrás de si o pergaminho que conta a árdua travessia dos últimos anos. Corre naquele Céu, o círculo, que envolve todas as nações, e faz a grande Tocha anunciar: o século XXI começou.

sábado, 2 de agosto de 2008

Emoticons

Os emoticons foram uma das coisas mais incríveis que já inventaram em termos de línguas! Numa época em que a comunicação instantânea e ao vivo, que antes era exclusivamente oral, passa a ser também bastante exercida por escrito, eles surgiram para resolver o que sempre foi apontado como uma das grandes deficiências desta: a impossibilidade de expressar tons de voz, expressões faciais e corporais, e todas essas coisas que usualmente não expressamos por conceitos, quando falamos.

(os emoticons não são conceitos então? o que eles são? talvez isso renda outro post no futuro...)

Fazendo, assim, outro exercício de futurologia, não dou muito tempo pra que eles comecem a ser incorporados à língua escrita (não só em conversas, mas em livros e textos mais longos), e comecem a ser sistematizados, e apareçam finalmente nas gramáticas. Como sistematização é outra coisa com o que eu adoro brincar, vou me adiantar e fazer isto. Gramática dos Emoticons.

Vou começar então supondo que existe uma classe de objetos lingüísticos (como as classes de adjetivos, substantivos, etc.) chamada de "emoticons", cuja função no texto é exprimir emoções e sentimentos que acompanham o texto de forma não-conceitual.

Morfologia

A maioria dos emoticons reproduz, primariamente, expressões faciais - é a origem morfológica de quase todos eles.

No Brasil, vivemos sob dois regimes morfológicos de emoticons.

O primeiro é o regime norte-americano, ou ocidental. Emoticons desse tipo consistem em um sinal de dois pontos (:) (variante: um sinal de igual (=) ) seguido de um caractere qualquer (letras maiúsculas, em boa parte dos casos) que originalmente representava a boca da face.
Exemplos:
:) - :( - :/ - :D - :S - :O - :E - :B - :T - :P
Repare que toda a expressividade dos emoticons ocidentais é carregada na boca; os olhos quase sempre são iguais. A única variação de olhos neles é quando se troca os dois pontos (:) por ponto-e-vírgula (;), adicionando o 'efeito de piscadela' ao emoticom original.

O segundo regime é o regime japonês. Ao contrário do ocidental, nestes é a boca que é inexpressiva (quase sempre inexistente); toda a expressividade é carregada nos olhos. Sua forma é geralmente algum caracter duplicado, representando os olhos dispostos horizontalmente (ou dois simbolos diferentes, quando se trata de um 'olhar assimétrico'), juntos (variantes: separados por um ponto (.) para representar o nariz, ou por um underline (_) para representar a boca).
Exemplos:
¬¬ - ^^ - o.O - u.u - *.* - o_o - T.T - x.x

Há dois emoticons em particular que são frequentemente usados e que não pertencem a nenhuma dessas classes: o de comemoração (\o/) e o de despedida (o/ ou variante \o). Há também quem use uma variante deles para expressar desespero (/o\). São basicamente estes; talvez possamos chamá-los 'emoticons de braço'.


Sintaxe

Emoticons, obviamente, não exercem função sintática em uma frase - a menos que criemos uma função específica para eles. Eles geralmente são escritos no fim de orações (algumas vezes, mais raras, no início delas), e não são separados por nenhuma pontuação específica. Na comunicação instantânea, costumam mesmo exigir a omissão do ponto final, para não gerar cacografia. Podem também vir escritos solitariamente, formando ele sozinho uma dada frase.


Emoticons escritos

Uma classe especial, bem interessante, é a dos emoticons escritos - que não têm origem pictográfica, mas são sequencias de letras (geralmente nascidas de abreviações que se consagraram) que representam uma ação ou emoção não-conceitual. Um exemplo freqüente é a expressão de risadas "rs" (e as variantes existentes nos estados unidos, como "lol"). Mesmo que se queira tratar como abreviações, pelo menos a função sintática é a dos emoticons. Há também os que defenderiam tratar essas expressões como interjeições - que usualmente é uma classe que representa emoções não-conceituais, mas que também são expressas verbalmente. As 'risadas por extenso' (hahahah, hehehe, hihihi, auehhieoehoae, etc.) me parecem mais claramente membras desta classe.

Meu Mapa Musical

Em mais um post auto-referente, vou listando aqui meu gosto musical. Mas com os músicos agrupados em classes que parecem ser as tendências dominantes do meu próprio gosto musical, as características de cada musico que me fazem gostar especialmente dele. É como um mapa musical da minha cabeça - que possivelmente revela algumas características não-musicais relevantes desta.


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Guias-Mestras:
(onde a maior parte das características posteriormente citadas supostamente convergem)
Debussy e Ravel
Sigur Rós e Radiohead
Em especial, a sensação de não-pertencimento ao mundo que eles transmitem; eles fazem música olhando para um certo jeito de fazer música (a musica clássica tonal, no caso dos primeiros, o rock no caso dos segundos), estando inseridos até certo grau neste ambiente, mas deixando claro que o tempo daquilo passou, que eles não fazem mais parte daquilo.
Os componentes das duas duplas citadas fazem contraponto um ao outro: um leve, contemplativo, sentindo o mundo exterior entrando suave como o ar nos pulmões - o outro pesado, doloroso, angustiante, queimando o corpo por dentro para sair em cores fortes e vibrantes.

'Movimento Islandês':
Sigur Rós, Amiina, Múm
(acho deles o mesmo que eu acho do Sigur Rós, citado acima)


Música de Ambiente:

Mogwai, Mono, São Paulo Underground


"Musicas Culturais" (que me evocam um certo ambiente cultural específico)

- Do Mundo Cosmopolita e Globalizado
Björk - principalmente com a "musica do mundo globalizado em Volta"
Antony and the Johnsons - o sofisticado mundo artístico cosmopolita de NY
Prabhu Deva (e um pouco do Daler Menhdi) - o jeito indiano de lidar com a globalização
(dá pra citar a MIA tb, mas quem gosta dela é o zipi)

- De pedaços específicos deste mundo
Grieg - a magia nórdica
(e os concertos celta, judeu e uns outros do Max Bruch)
At-Tambur - ibéricos e celtas
meus CDs de Música Prehispanica
Deep Forest (especialmente o clip do "Sweet Lullaby")
Qntal e sua releitura eletrônica / contemporânea da medievalidade

- Dos Vizinhos
Chico Buarque, como um dos elementos da "alma brasileira"
- e Hermeto Pascoal, o que se faz no Brasil mais próximo do citado nas Guias-Mestras
Cordel do Fogo Encantado - a minha imagem de nordeste
Gotan Project e sua releitura eletrônica do Tango o.O


Músicas das Maquinas:

Kraftwerk - os pais da parada, e ainda os mais radicais nesta proposta
Daft Punk
Tangerine Dream - eletrônico de ambiente
Hot Chip
Infected Mushroom - ok, eles são meio pops e são de Israel, mas dá pra perdoar
Chemical Brothers (especialmente o "Star Guitar")
Lemon Demon - é o que dá qdo um adolescente nerd vai fazer essas coisas


Experimental & Dissonante
- o Movimento Islandês
- Igor Stravinsky
- musica eletroacústica em geral
- Hermeto Pascoal
- Marli - muito nonsense e assutador e legal!!
- Hidrogenesse


# Algumas bandas que eu gosto de forma específica
Arctic Monkeys - música rápida! (& alguma coisa do Rush)
Rammstein - música forte e robusta!
The Smiths - ingleses introspectivos (& Belle&Sebastian)
MGMT - cantos de juventude


# Algumas cantoras que são legais porque são bem delicadas:
- Americanas: Fiona Apple, Cat Power, Alanis Morissette
- Francesas: Emilie Simon, Françoise Hardy, Julie Delpy
- Portuguesas: a mulher do Madredeus
- Joanna Newson! (poderia entrar como agregada no movimento islandês)


# Bossa Nova e similares de outras partes do mundo
(afinal, sendo carioca, eu tinha que ter um lado meio assim, hehe)
- Tom Jobim e todo mundo que já gravou com ele;
- Cesaria Evora, da Angola
- Madredeus, de Portugal
- Queyi, da Espanha