quinta-feira, 24 de abril de 2014

O Albergue do Longínquo

[Resolvi começar a usar esse blog obscuro pra coisas obscuras que eu faria em emails, tipo escrever resumos de livros pra mim mesmo ou pra pessoas próximas. Vai que alguém, fazendo buscas obscuras, encontra isso aqui e acha útil. É bom sempre deixar a informação circulável, pelo menos potencialmente.]


Estive lendo nos ultimos dias um livro de um francês parça, Antoine Berman, sobre tradução [A Tradução e a Letra ou o Albergue do Longínquo, versão traduzida em 2013 pelo PGET/UFSC (especificamente por Marie-Hélène Catherine Torres, Mauri Furlan e Andréia Guerini]. Achei as ideias boas então resolvi resumir.

Que tradução de palavra por palavra ao pé da letra é uma ideia ruim, isso é sabido por todos. Mas o seu oposto, herdado do Império Romano, também é ruim, como definido pelo romano São Jerônimo:

sede quasi captivos sensus in suam linguam uictoris iure transposuit
[mas os sentidos, como que capturados, transladou-os à sua língua, como um direito de vencedor]

non uerbum e uerbo, sed sensum exprimere de sensu
[não traduzir uma palavra a partir de outra palavra, mas o sentido a partir do sentido]


Assim, tradução, para os romanos e até hoje, é anexação, transculturação, é etnocêntrica e hipertextual (porque encaixa o texto em um horizonte literário que lhe é estranho). Ou, indo às palavras do autor (que são bonitas e abundantes):

Aplicada às obras, a cesura platônica sanciona um cetro tipo de "traslação", a do "sentido" considerado como um ser em si, como uma pura idealidade, como um certo "invariante" que a tradução faz passar de uma língua a outra deixando de lado sua casca sensível, seu "corpo": de sorte que o insignificante, aqui, é antes o significante. Do mesmo modo, todas as línguas são uma(s) pois nelas reina o logos, e é isso que, além das suas diferenças, funda a tradução. Esta última deve estabelecer-se na esfera da idealidade e fornecer a prova da existência deste puro logos constitutivo de toda língua como tal. Desta forma é negada não somente a confusão de Babel, o "fantasma assustadora da multiplicidade de línguas, mas também o fato de que esta multiplicidade tenha um sentido qualquer. A tradução é, por assim dizer, a demonstração da unidade das línguas. Assim como São Paulo dizia: "Morte, onde está tua vitória?", ela diz: "Babel, onde está tua vitória?" Logo ela é a boa nova da traduzibilidade universal.

Mas em que esta captação platônica do sentido é "etnocêntrica"? Em que esta negação de Babel é ao mesmo tempo uma redução? Partir do pressuposto que a tradução é a captação do sentido, é separa-lo de sua letra, de seu corpo mortal, de sua casca terrestre. É optar pelo universal e deixar o particular. A fidelidade ao sentido opõe-se -- como para o crente e o filósofo -- à fidelidade à letra. (...) Mas esta infidelidade à letra estrangeira é necessariamente uma fidelidade à letra própria. O sentido é captado na língua para a qual se traduz. Para tanto, deve ser despojado de tudo que não se deixe transferir. A captação do sentido afirma sempre a primazia de uma língua. (...) Pois a captação não libera o sentido numa linguagem mais absoluta, mais ideal ou mais "racional": ela o encerra simplesmente numa outra língua, considerada, é verdade, como mais absoluta, mais ideal e mais racional.

Pois desce que se concebe o ato de traduzir como captação de sentido, algo vem a negar a evidência e a legitimidade desta operação: a adesão obstinada do sentido à sua letra. Tradutores, autores e leitores sempre sentiram isso. Essa opéração conquistadora e exaltante, essa demonstração da unidade das línguas e do espírito, está maculada por um sentimento de violência, de insuficiência, de traição. Steiner fala, com razão, da tristeza que acompanha desde sempre o ato de traduzir. Há, evidentemente, nessa experiência, um sofrimento. Não somente aquele do tradutor. Também aquele do texto traduzido. Aquele do sentido privado de sua letra.
(...)
Mas o que é negado -- o corpo -- se vinga. A tradução descobre às suas custas que letra e sentido são, ao mesmo tempo, dissociáveis e indissociáveis. Não importa que a dissociação seja filosoficamente ou teologicamente legitimada, pois na tradução aparece algo irredutível à cisão platônica. Ainda mais: a tradução é um dos lugares onde o platonismo é simultaneamente demonstrado e refutado. Mas essa refutação, longe de abalar o platonismo, recai fortemente sobre a tradução. Se letra e sentido estão ligados, a tradução é uma traição e uma impossibilidade.

Tal é a consequência da definição etnocêntrica e hipertextual da tradução. E o que explica o estatuto oculto, rechaçado, vergonhoso dessa atividade. Quantos tradutores interiorizaram esse estatuto e se desculpam por antecipação com o leitor da imperfeição, da presunção de seu empreendimento! Chapiro, tradutor para o francês dos Irmãos Karamazov, não hesita em dizer que ele não conseguiu "escapar da danação original que pesa sobre todo empreendimento de tradução".

Claro que toda tradução é uma interpretação e, como tal, envolve "deformar" a obra sob os horizontes do seu próprio tempo e da sua própria cultura. Aliás, ele faz um catálogo útil de 13 formas comuns de deformação de uma obra, focando-se na prosa literária (que não devem ser metodologicamente combatidas, é claro, mas devem ser conscientes).
  1. Racionalização: rearrumar as frases traduzidas segundo uma certa ideia de ordenamento do discursos. Especialmente frequente em frases densas ou cadências incomuns. Incide sobre a pontuação, a ordem das frases, a escolha de vocábulos mais abstratos, etc. 
  2. Clarificação: caso particular de cima focado no sentido. Onde o original se move sem problema (e com uma necessidade própria) no indefinido Isso pode ser tão violento quanto a adição de frases ou perífrases explicativas, mas mesmo a escolha de uma opção quando há uma palavra polissêmica já é uma distorção desse tipo. 
  3. Alongamento: toda tradução tende a ser mais longa que a original, em parte por causa da racionalização e clarificação. Em muitos casos, esse alongamento não acrescenta muito, só aumenta a massa do texto "sem aumentar sua falância ou significância", mas obscurecendo o original com sua classificação e afrouxando o ritmo da obra. 
  4. Enobrecimento: fazer o texto parecer mais belo do que ele é, usando uma linguagem mais poética ou mais retórica ou com mais imagens classicizantes onde o texto original era simples e concreto. 
  5. Empobrecimento qualitativo: substituir termos, expressões, modos de dizer, etc. do original por outros que não tem a mesma riqueza sonora ou icônica. ("Quando se traduz a palavra peruana "chuchumeca" por "puta", consegue-se certamente devolver o sentido, mas nunca a verdade sonora e significante desta palavra. É assim com todos os termos chamados normalmente de 'saborosos', 'densos', 'vivos', 'coloridos' etc, epítetos que remetem a essa corporeidade icônica da palavra.") 
  6. Empobrecimento quantitativo: as obras costumam ter redundância, abundância vocabular, etc. e isso frequentemente desaparece na tradução. É frequente, aliás, o texto traduzido ser quantitativamente mais pobre e ao mesmo tempo mais longo. 
  7. Homogeneização: A prosa é sempre heterogênea e polifônica, meio sem forma, não cabe na mão (diferente da poesia). E o tradutor acaba homogeneizando ela, escrevendo ela de uma maneira só. 
  8. Destruição dos ritmos: É um problema óbvio da tradução de poesia, mas acontece na prosa também. Ele dá um exemplo de um texto que tem o ritmo de um trenzinho atravessando o País de Gales e esse ritmo totalmente se perdeu na tradução. E de um outro cujo original tinha apenas quatro sinais de pontuação e a tradução, 22). 
  9. Destruição das redes significantes: Toda obra comporta um texto subjacente, onde certos significantes-chave se correspondem e se encadeiam, formando redes sob a superfície do texto. Ele dá o exemplo dos Sete Loucos de Arlt, em que aparecem, as vezes em capítulos diferentes, palavras aumentativas (portalón, alón, jaulón, portón, gigantón, callejón), que dão um tom para a intensidade dos pesadelos. Se uma tradução as substitui pelos termos comuns para essas palavras (portaiel, aile, cage, vestibule, géant, passage), essa dimensão se perde. 
  10. Destruição dos sistematismos: os textos tem também ocorrências sistemáticas (a escolha de um tipo de tempo verbal ou de oração subordinada ou de pronome demonstrativo, etc.). Assim, mesmo que a tradução seja mais homogênea no sentido de apagar a polifonia, ela costuma também ser mais incoerente, no sentido de não transmitir esses sistematismos. Daí o texto não soa como um texto verdadeiro, fica com a cara de uma tradução servil. 
  11. Destruição das redes de linguagens vernaculares. As línguas cultas, para as quais se traduz, em geral são menos corporais, menos icônicas que os registros regionais, coloquiais etc., que frequentemente são usadas nos textos (a retomada oralizando é frequente, por exemplo, em boa parte das literaturas latino-americana, italiana e mesmo norte-americana do século XX). Supressão dos diminutivos, substituição dos verbos ativos por verbos com substantivos (o peruano "alagunar-se" tornando-se, na língua culta, "transformando-se em laguna"), transposição os significantes vernaculares ("porteño" por "habitante de Buenos Aires"). Uma solução que se usa é manter o termo vernacular como no original, em itálico, isolando-o onde, originalmente, não havia qualquer isolamento. Outra é acrescentar algo ao termo para "torna-lo mais verdadeiro", reforçando qualquer estereótipo do vernacular em questão (essa estratégia é chamada de "exotização", e dá vergonha alheia) (acontece também quando se troca um vernáculo por outro, por exemplo tusando as gírias de Paris pra traduzir o lunfardo de Buenos Aires, ou o falar dos camponeses russos. Tudo bem fazer releitura, mas isso é matar a obra). 
  12. Destruição das locuções: um caso particular do de cima são as expressões locais (como "He did not care a tinker's curse"). Em muitos casos, essas expressões possuem correspondentes na outra língua, mas substituir uma expressão por outra também é etnocêntrico e atenta contra a falância do texto (por exemplo, quando se traduz Le monde appartient à ceux qui se lèvent tôt por Deus ajuda quem cedo madruga). 
  13. Apagamento das superposições de línguas: Na verdade uma prosa nunca tem só um registro vernacular, ou um registro culto. Mas várias vozes, que se expressam em vários registros linguísticos diferentes. Por exemplo, a tensão entre guarani e espanhol em Roa Bastos, ou a tensão entre espanhol da Espanha e espanhóis latino-americanos em Tirano Banderas, ou entre os diferentes níveis de alemão em Thomas Mann. 

Mas cabe se perguntar qual o objetivo geral de uma tradução, seu objetivo "transtemporal" (um historicista odiaria ouvir isso, como o próprio autor comenta, pq afinal a ideia de tradução tomou muitas feições distintas ao longo da história). Antes, no início, o autor já tinha colocado na mesa suas cartas existencialistas, negando que a tradução possa se definir por teoria ou por método, mas se coloca como experiência e como reflexão sobre essa experiência. Que não é guiado por qualquer supraestrutura, mas que acontece enquanto acontece e, no processo, alguém, sendo invadido por algo que lhe transcende, pode se orientar por suas reflexões, informadas pela filosofia e, plausivelmente, por isso que ele pretende apresentar como o "objetivo puro da tradução".

Uma das justificativas pras práticas etnocêntricas é a de facilitar a comunicação da obra para seu público, da mesma maneira que faz a tradução da vulgarização científica. Mas esse processo é por vezes tão violento que destroi a obra. Por outro lado, toda tradução é uma violência. Fica-se no dilema: ou se diz nada a todos, ou se diz tudo a ninguém. Mas o objetivo da tradução não é comunicar nada. Ele cita uma crítica do Benjamin:

Mas o que "diz" um poema? O que comunica? Muito pouco para quem o compreende. O que há de essencial não é comunicação. não é enunciação. Uma tradução, no entanto, que queira comunicar só poderia transmitir a comunicação -- portanto, algo inessencial. Está nisso também um dos sinais que permite reconhecer uma má tradução [...] uma transmissão inexata de um conteúdo inessencial. Este será sempre o caso da tradução que se propõe servir ao leitor.

Uma obra é uma manifestação. Manifestação do Absoluto (de algum absoluto), do contato com algo que passamos a entender e a sentir (no nível mesmo das paisagens mentais) depois que nos encontramos com a obra ("Numa obra, é o 'mundo' que, cada vez de uma maneira diferente, se manifesta na sua totalidade. Toda comunicação concerne a algo parcial, setorial. A manifestação que a obra é, concerne sempre a uma totalidade"). No sentido heiddegeriano mesmo. E a tradução, com sua exigência ética tradicional de ser fiel à obra (seja lá o que isso signifique), procura re-acolher essa manifestação no espaço da sua própria língua. Realizar a manifestação de uma manifestação. Essa manifestação não pode ser totalmente aclimatada pois senão ela é morta. Usando uma linguagem mais classica,
sob a figura do Estrangeiro (por exemplo, do suplicante), o homem encontra Deus ou o Divino. Acolher o Outro, o Estrangeiro, em vez de rejeitá-lo ou de tentar dominá-lo, não é um imperativo. Nada nos obriga a fazê-lo. Aquiles, na Ilíada, pôde desdenhar de Príamo suplicando, e tudo o leva a fazer isso; mas pôde também atender à súplica, e assim, aceder a uma esfera que transcende a das suas proezas épicas. Essa escolha ética é certamente a mais difícil que há. Mas uma cultura (no sentido antropológico) só se torna realmente uma cultura (no sentido do humanismo de um Goethe da Bildung) se for regida -- pelo menos em parte -- por essa escolha. Uma cultura pode perfeitamente se apropriar de obras estrangeiras (vimos que é o caso de Roma) sem nunca ter com elas relações dialógicas. (...). Ora, a tradução, com seu objetivo de fidelidade, pertence originariamente à dimensão ética. Ela é, na sua essência, animada pelo desejo de abrir o Estrangeiro enquanto Estrangeiro ao seu próprio espaço de língua. (...) a tradução é, em sua essência, o "albergue do longínquo" [l'auberge du lointain].

Daí ele analisa três traduções clássicas que podem ser consideradas exemplares.

A primeira é a tradução de Holderlin das obras de Sófocles, no século XIX, que deliberadamente modifica o texto grego para intensificar a dimensão de emergência do sagrado dele, em vez de ser fiel à dimensão de clareza conceitual do texto (que é menos "estrangeira" para o meio alemão de então).
Essa acentuação, na medida em que revela o ocultado do original, é uma manifestação. E dado que essa manifestação só pode se produzir transformando a obra em alguns dos seus traços, ela é uma violência. Uma violência dupla, já que atenta contra o original seja para aproximá-lo, diz Holderlin, do nosso "modo de representação", seja para aproximar-nos deste modo -- e isso será a tradução "literal" onde o grego invade o alemão, produz o que Hofmannsthal chamava das Griechisches der deutschen Sprache [os elementos gregos da língua alemã]. Mais ainda: esta tradução "literal" irã num duplo sentido: reencontrar as significações primeira das palavras gregas mas, para transmiti-las até n´so, chegar ao sentido original das palavras alemãs, usar a "velha língua" de Lutero, o dialeto suábio, etc. para tentar reestabelecer a força falante do grego pela força falante do alemão.
Ele usa principalmente três estratégias pra isso: (i) traduções hiperliterais (p. ex. traduzir o verbo kalkhainoo com seu sentido concreto original, ter a cor vermelha, me vez do derivado "estar melancólico, atormentado") ou mesmo modificações (traduzindo, por exemplo, os nomes dos deuses por expressões do que representam: Zeus por 'Pai da Terra', Ares como 'espírito da Guerra', demônios por 'deuses de nossos pais' ou 'deuses da outra margem' -- o que é ao mesmo tempo uma ocidentalização e um rejuvenescimento da força original do texto), (ii) recursos ao antigo alemão, também num sentido etimológico, não pra ser arcaizante, mas porque "todas essas palavras, dialetais ou antigas, tiradas do 'fundo' da língua são mais fortes, contribuem a edificar a grande língua selvagem que, além do classicismo, deve falar na tragédia", (iii) reconstruções de frases, de forma a ficarem mais brutais, mais fortes (onde o francês Grosjean traduz "Eis aquela que cometeu o delito / Surpreendemo-la enterrando. Onde está Creonte?", Holderlin escreve "Foi ela. Foi ela que fez isso. Nós a pegamos fabricando o túmula. Mas onde está Creonte?").


Depois tem a tradução de Chateaubriand do Paradise Lost de Milton. Ele faz uma tradução muito latinizante no francês, para recuperar o tom latinizante que o texto do Milton tem em inglês. Pra isso recorre também a raizes incomuns que o francês tem em comum com o inglês. E cria neologismos mesmo, como, segundo Berman, toda grande tradução faz (afinal, é razoável que essa manifestação da manifestação exija novas palavras). E essa coisa de mediar a tradução por uma terceira língua (ou quartas e quintas e sextas) é uma maneira importante de permitir essa abertura.

Depois a Eneida de Klossowski. Que é a tradução de um clássico depois da filologia ter monopolizado a palavra sobre os clássicos. Com sua precisão historicista de recuperação do sentido, convergindo com a arrogância dos métodos cientificistas, ela se arrogou o direito único de traduzir as obras clássicas e, não só isso, de comentá-las (as traduções filológicas vem recheadas de notas de rodapé para situar o leitor historicamente, esclarecer os sentidos, etc. Esse é um típico procedimento de assassinato do corpo da obra em nome de seu sentido (olhando assim, podemos nos espantar com como esse procedimento de rigor é incrivelmente conservador, no sentido cartesiano).
Pois o conhecimento "exato" de uma obra e de uma língua não habilita em absoluto à tradução e ao comentário. (...) Com o resultado, mesmo quando os textos clássicos são pela primeira vez acessíveis na sua integridade, que esses textos se tornam também, e pela primeira vez, ilegíveis, entediantes e estranhos à nossa sensibilidade. Assim, a filologia, ao "embalsamar" esses textos, consuma, sem se dar conta, essa ruptura com a tradição que acontece de outra forma no plano cultural e literário. É nesse momento -- e somente neste momento -- que Homero, Dante, Virgílio, etc. se tornam ininteligíveis, enquanto que a tradição, com suas traduções "inexatas", conservava com eles uma relação viva, feita de imitação e de recriação.
Mas claro que dá pra se relacionar com isso de uma forma positiva, retomando a vivacidade dos textos sem perder de vista a consistência da crítica filológica ("Esse processo conhece exceções, onde a filologia guardou a memória das suas origens românticas, onde ela ficou filologia, amor-da-língua, onde ela não se tornou erudição obtusa (...) Para estes grandes sábios, a filologia permanece presa no espaço da Bildung").

Uma estratégia que o Klossowski usa é fazer inversões nas sentenças francesas porque isso cria o mesmo tipo de tensão e foco que o latim permite, dando a impressão de que a tradução é literal mesmo quando não é, porque as inversões possíveis em francês são diferentes. "O que é traduzido é o sistema global das inversões, rejeições, deslocamentos, e não suas distribuições factuais ao longo dos versos".

quarta-feira, 19 de março de 2014

Budas epistemológicos

Na tradição vajrayana (literalmente, do carro de diamante) do budismo, tem os cinco dhyani budas ou budas da meditação. Cada um representa uma sabedoria específica e está associado a uma das cinco cores, cinco direções cardeais, cinco elementos, cinco animais, etc. Como essa é uma das coisas que não é feita pra se entender muito com palavras, não vou ficar explicando aqui. Minha humilde contribuição é apontar esse sistema quíntuplo como um sistema epistemológico interessante.

Os cinco budas são

  • O Azul (Akshobhya) é o da Sabedoria do Espelho: a sabedoria de ver o outro pelo ponto de vista dele próprio, o que gera disposição de acolhimento. Essa sabedoria é uma das grandes marcas das humanidades desde sua fundação no século XIX, no ideal historicista do Dilthey (de se transportar para a época e descrever os eventos históricos como faziam sentido à época, em vez de filiar os eventos a uma linha do tempo trans-histórica que, na verdade, é só o ponto de vista do presente) e na disposição na antropologia de se despir da sua cultura.
    Claro que essa disposição é idealizada (bom, os budas podem porque eles são budas) e nossa capacidade de se colocar no lugar do outro é sempre necessariamente limitada (somos sempre espelhos imperfeitos). A consciência explícita dessa limitação foi parte central da crítica, no século XX, ao idealismo do século XIX, com o reconhecimento, no olhar histórico, da impossibilidade de se despir do olhar do presente e, no olhar antropológico, da contaminação necessária da sua própria cultura (todo olhar pra outra cultura é um fenômeno de cross-culture).
  • O Amarelo (Ratnasambhava) é o da Sabedoria da Igualdade: a sabedoria de reconhecer o que é igual nas coisas, o que todas elas tem em comum, o que gera disposição de doação (ou o reconhecimento de que o que é bom para os outros é bom pra você, em algum grau). Essa é a disposição de qualquer filosofia de tipo platônica: a de buscar princípios e ideias gerais que unifiquem ou permitem compreender as coisas como casos particulares de algo maior. É uma disposição importante da filosofia natural e de posturas racionalistas em geral (se assumir como racional envolve, em geral, despir as coisas da sua diversidade para procurar coisas por trás), mas também de posturas místicas em geral (na tradição grega, ambas as coisas vem da mesma compreensão do conhecimento como aletheia, como desvelamento (literalmente, retirada de véus) do que é o que é, por trás do que aparenta ser. E o Platão é, a um só tempo, um herói dos racionalistas e dos místicos).
    Os limites dessa ideia de subsumir coisas a ideias gerais e seu consequente empobrecimento da realidade são tão repisados que não vale a pena repetir.
  • O Vermelho (Amitabha) é o da Sabedoria Discriminativa: a sabedoria de reconhecer o que é específico nas coisas, o que cada coisa tem de único e particular. É a sabedoria investigativa, catalogadora, esmiuçadora da história natural -- e dos seus descendentes, os cientistas experimentais, que frequentemente acusam os cientistas teóricos de serem amarelos demais. É também algo caro a filosofias realistas (compreender as coisas 'como elas são'), que acusam os racionalistas de serem amarelos demais. As lições aristotélicas se opõem às platônicas por causa do seu buda vermelho, embora o Aristóteles talvez também fosse amarelo demais.
    Mas é claro que ser muito extremista aqui faz você se afogar na multiplicidade infinita e, no limite, impede a produção de qualquer conhecimento por parte de mentes finitas. Mas há os que defendam (eu! eu! eu!) que é melhor o mundo ser experimentado, com todas as suas cores e texturas, que conhecido através de alguma sombra pálida.
  • O Verde (Amoghasiddhi) é o da Sabedoria da Causalidade: a sabedoria de reconhecer cadeias causais, saber reconhecer consequências de suas ações e, portanto, saber agir; é uma sabedoria de realização, forte e irada (como quando alguém grita a outro para que não atravesse a rua, enquanto um carro desavisado aparece e tira uma camada fina de células epiteliais). Saber da causalidade é a base de qualquer conhecimento prático, e é importante na ciência moderna porque ela nasceu de sabedorias práticas de artesãos (como a mecânica, aquela área mais tradicional da física, que procura resumir todos os fenômenos a choques e contatos determinísticos). Nas humanidades, o conhecimento prático mais difundido talvez seja a política (no sentido amplo mesmo): dominar as causas significa saber o valor da ação (a ação no presente que visa um mundo imaginado no futuro, desse jeito bem Era Moderna mesmo).
    Os excessos verdes são os excessos do determinismo e são tão inocentes quanto todos os outros excessos: é importante reconhecer que ninguém domina nada, que o mundo é caótico (oi discordianos) e que, mesmo na parte ordenada dele, há tantos fatores simultâneos que é difícil ter segurança sobre as consequências de uma ação.
  • O Branco (Vairocana) é a sabedoria do meio, o substrato das outras quatro sabedorias, a sabedoria do vazio fundamental de todas as coisas (as coisas só são o que são porque projetamos a luz do nosso olhar nelas; por trás dessa luz, há apenas uma resistência disforme, descaracterizada, descolorida, desconceitualizada, que são as coisas que "estão" antes da nossa percepção delas). Essa sabedoria não é costumeiramente encarada como algo positivo no ocidente, mas como um princípio negativo, de limitação e contenção das outras sabedorias (qualquer ceticismo epistemológico, partilha, em algum grau, desse olhar para o vazio). Mas ela pode ser buscada positivamente, desde que de modo não-conceitual (essa sabedoria é dessas que só aparece muito depois de se abandonar a estada da conceitualização, mas a nossa tradição não costuma sair dessa estrada). Por isso os budistas se calam, contemplam e repousam.

A beleza de cada um

Tem a velha questão de onde reside ou o que gera a Beleza. Essa questão é imediatamente bipolarizada pela pergunta sobre se existe uma ou algumas réguas universais de beleza ou se a beleza é algo apenas individual (tipo a "questão de gosto" kantiana) ou cultural.

Acho importante reconhecer o que existe de "universal" (não no sentido metafísico mas no cognitivo, que é pra onde todos os universais humanos migraram) na percepção de beleza. Dizer que 'é bonito apenas o que dizemos que é bonito' dá poder demais à cultura, gera um determinismo cultural análogo ao determinismo linguístico (ou à forma mais radical dele, em que o pensamento é totalmente limitado pela língua -- o que contradiz francamente a sensação, comumente expressa por filósofos e literatos, de que as palavras não conseguem capturar direito as ideias).

Mas com a ressalva de que isso não se opera de maneira simples, com um ou dois princípios orientando a estética e juízos do tipo "tal coisa é tida como bonita pq obedece a esse princípio". Devem ser vários princípios cognitivos que orientam a percepção de beleza (a começar dos princípios de boa forma da Gestalt), junto com vários elementos da cultura (p. ex. a semelhança ou a filiação ou qualquer reverberação de outras formas reconhecidas naquela cultura). Esses princípios aparecem em diferentes graus, reforçados ou desafiados (por exemplo em composições que querem transmitir tensão, desequilíbrio ou em todos os casos de "beleza do feio"), todos misturados, na criação de formas específicas que, uma vez criados pelas mãos de algum artista, entram na disputa (do tipo "seleção natural") das formas que se consagram em alguma cultura (e depois em outras culturas, uma vez que as culturas interagem o tempo todo). Por exemplo, a forma dos sonetos ou dos haikai, ou do contraponto musical, ou dos pontos de fuga nos quadros.

Daí que as pessoas serem bonitas dependem, em larga medida, delas acharem e fazerem sua beleza. De terem espelho em casa, se olharem, se tocarem, encontrarem padrões de beleza em si mesmas, construírem pra si uma forma, se identificarem com ela. A lapidação dessa forma envolve aspectos externos (a escolha de roupas, de corte de cabelo, de maquiagem) mas envolve um monte de coisas sutis, como postura, expressões faciais e corporais, o encadeamento do discurso no movimento do corpo, etc. Esse processo de auto-construção é mais fácil pra alguns que pra outros, por disposições psicológicas diversas (envolvendo auto-estima, p. ex.) e porque as expectativas ou os gostos formais de alguém podem casar mais facil ou mais dificilmente com o corpo que ele habita (isso inclui todas as pessoas que tem um gosto para corpos moldado apenas pelo mercado de beleza corporal, mas cujos corpos, em princípio, funcionariam sob algum outro padrão formal).

Em resumo: sejam bonitos, encontrem as belezas em vós.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Ridículo

O valor estético do Ridículo é importante na nossa vida pós-moderna. Especialmente na seleção de exemplos ou metáforas associadas a construtos teóricos (por exemplo, dizer que alguém receptivo e acolhedor partilha do arquétipo da Enfermeira Joy, do Pokémon). Escolher exemplos ridículos e não exemplos sublimes dá uma mundanidade necessária à ideia, porque mostra que ideias "elevadas" aparecem em dimensões tão triviais como a cultura pop, e mostra também que essas dimensões como a cultura pop carregam conhecimentos valiosos sobre as pessoas e a vida. E o recurso ao humor tira suas pretensões iluministas (de conhecimento verdadeiro), traz a lição discordiana (e da pós-modernidade) de que o excesso de seriedade e de crença na ordem nos cega. Nos lembra que a ideia teórica, como o exemplo escolhido, é apenas uma opção tirada de dentro do enorme armário das ideias fornecidas pelas tradições.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Opressões

Esses tempos no Brasil nos empurram e nos acordam para a esquerda. Numa inspiração indiretamente derivada desses últimos meses, resolvi postar aqui as lutas "de esquerda" (no sentido de lutas de proteção a minorias e contra hegemonias que oprimem como modus operandi) com as quais eu me identifico ou me envolvo de alguma forma.

Em primeiro lugar, tem as causas maiores, que já alcançam (bem ou mal) vários setores da sociedade e estão no nivel das discussões na legislação:
1. contra a atribuição bipartida de gênero: os movimentos LGBT e as leis de proteção aos mesmos; 
2. contra a desigualdade na atribuição de gênero: os movimentos feministas e as leis de proteção às mulheres; 
3. contra os pedaços de cadáver zumbi das atribuições raciais: os movimentos negros e pró-memória e contato africanos; 
 4. contra a perseguição social de substâncias recreativas: as leis de legalização da maconha e de normatização decente do que mais vier, e as práticas decentes de amparo ao vício (que certamente não incluem internação compulsória); 
Em segundo, as causas que, não por serem menos importantes, pertencem a lutas menores mas que crescem e precisam crescer:
5. contra a normatização, pelo Estado e pela sociedade, das relações humanas: as Relações Livres
6. contra o imperialismo intelectual da ciência: o anarquismo epistemológico (cf. qualquer coisa do Paul Feyerabend); 
7. contra o preconceito linguístico (a última área em que é "ok" ser publicamente preconceituoso): a vitória dos linguistas sobre a gramática tradicional (cf. qualquer coisa do Marcos Bagno); 
8. contra a educação para a média, para os antigos e para ninguém: a educação democrática (p. ex. Escola da Ponte e suas derivadas, como a Politeia) e a educação personalizada (p. ex. a Geekie);
9. contra o urbanismo funcional tãaao século XX: os grupos de reapropriação da natureza coberta (p. ex. Rios e Ruas), de reapropriação dos espaços públicos como espaços coletivos (p. ex. as hortas urbanas) e, em particular, o cicloativismo. 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Restos estruturais

Quando eu era adolescente, eu tinha a paranóia de conseguir fazer um mapa de todo o conhecimento, como as áreas de saber se dividiam e se agrupavam e tal. Eu queria um esquema universal, um pouco melhor que os que eu já conhecia (todos pareciam insatisfatórios, especialmente e em primeiro lugar a divisão tripartida entre "exatas", "humanas" e "biológicas" que a escola usava).

Em algum momento, me ocorreu que esses mapas mudam com o tempo (como não poderia deixar de ser, diria o meu futuro eu historicista), então que, para obter mapas bons, eu precisaria olhar para a forma como o conhecimento se organizava em épocas específicas (e justificar alguns mapas ruins de hoje em dia como mapas atrasados, de outras épocas). Em um terceiro momento, percebi que a coisa era mais complicada, porque as coisas velhas permanecem, como fósseis, entre as coisas novas, fazendo com que todo mapa desse tipo seja incoerente e anacrônico.

Esses restos de ordem antiga, que permanecem, incrustados e muitas vezes invisíveis, nas novas formas de organizar o mundo, aparecem em muitos domínios. Penso nos restos de língua que ficam escondidos em línguas novas, como nomes de rios e montanhas (os nomes tupi no Brasil e os nomes de origem desconhecida, mas provavelmente não indo-européia, na topografia da Europa), restos que o Daniel Roazen  chama de "substratos", fazendo analogia com as camadas de terra dos geólogos. Mas penso também em coisas físicas, como as casas velhas e os terrenos vazios na Av. Paulista, ou em qualquer outra avenida imponente (sempre há terrenos estranhos, porque a tendência urbana nunca cobre todos os espaços). E penso também em pessoas, como aqueles professores universitários velhinhos, que não estão nem aí para o modo como os cursos e a universidade se organizam hoje em dia, porque eles são resquícios vivos de uma outra maneira de ordenar as coisas (e porque novas ordens de pensamento não se impõem com as pessoas mudando de ideia, mas com as pessoas velhas morrendo e as jovens sendo educadas no novo paradigma).

Mas outro fenômeno interessante (o motivador inicial deste post) é quando uma área de tradição antiga é englobada, abraçada por uma área nova. O design, quando surgiu como um campo especificamente reconhecido (em algum momento entre a segunda revolução industrial e a Bauhaus), engolfou várias áreas que tinham uma tradição própria, como a tipografia. Hoje a tipografia é vista como uma área, uma especialização do design, mas ao mesmo tempo ela é algo com tradição própria: quando o design se definiu, os tipógrafos já existiam e estavam lá resolvendo seus próprios problemas. Coisas parecidas acontecem o tempo todo; um exemplo mais clássico pode ser a absorção, pelos filósofos naturais (futuros "cientistas"), das práticas alquímicas e herbárias.

Se lembrarmos que ideias (infelizmente?) não flutuam livres por aí, mas se restringem aos aquários das cabeças de pessoas, dá pra ver o que muda de uma situação para outra: as pessoas envolvidas (aquelas novas que são educadas no novo paradigma) têm um treinamento diferente e se identificam com uma comunidade diferente. Depois de algum tempo, todos os tipógrafos passaram a ser designers, com o treinamento e a perspectiva geral de um deles. Isso obviamente impactou o campo, trouxe problemas novos e novas maneiras de ver os problemas velhos. Em particular, essa questão aparece toda vez que se resolve montar um novo curso de graduação (pelo menos no Brasil e nos países em que os cursos têm estruturas rígidas) (e também foi uma questão que eu me deparei quando tinha dúvida sobre cursar física ou astronomia: caso típico em que uma subsumiu a outra, que contudo tem uma tradição própria mais antiga): eles servem para especializar, isolar as pessoas da classe mais ampla, o que às vezes é visto como necessário, para firmar um campo novo com identidade própria / exigências muito específicas, ou apenas um reflexo de uma especialização que já aconteceu no mundo da pesquisa.

sábado, 6 de abril de 2013

Como ser criativo (John Cleese)


Não costumo postar videos (nos últimos três anos, eu não costumava postar), mas esse é do John Cleese, um dos atores (e roteiristas) do Monty Python, o avatar do humor inglês nonsense. Existem milhares de sketches deles que eu amo e acho brilhantes, mas hoje quero postar um video sério (" ") do John Cleese, uma palestra dele chamada How to be creative:



A forma da palestra é bizarra e nonsensicamente boa, com piadas absolutamente imbecis introduzidas no meio da fala em momentos meio aleatórios (a partir de algum momento, começam a ser usadas para marcar a separação entre as partes da palestra). Além disso, o texto é muito bom, dialoga com um monte de ideias interessantes que flutuam por aí. Quero destacar algumas que me ocorreram:


  1. O mote inicial da primeira parte da palestra [no video, a partir de 6:30] é a distinção dele entre os modos aberto (relaxado, expansivo, inútil, contemplativo, humoroso e criativo) e fechado (ativo, tenso, impaciente, excitante, cheio de propósito) de trabalho humano. Lembra muito a dinâmica de Crise e Paradigma que o Thomas Kuhn usa como estrutura para a história da ciência. (eu pessoalmente não acredito em estruturas históricas, minhas religião é outra; mas preciso reconhecer que a noção de "paradigma" do Kuhn foi a ideia mais popular que a comunidade de história da ciência deixou para o resto da humanidade, até agora).
     
  2. A aproximação entre criatividade e jogo, no conceito de 'jogo' do Johan Huizinga: o homem é um jogador (homo ludens) tanto quanto é um sabedor (homo sapiens) e um fazedor (homo faber). que os historiadores também usam para descrever processos históricos. A noção de jogo (não só como cálculos de sorte e estratégia como os matemáticos costumam encarar, mas com a dimensão lúdica) acabou desempenhando um papel interessante na história da política e da cultura mas, principalmente, na história dos conceitos (um exemplo com Gumbrecht).
        
  3. A aproximação entre criatividade e meditação, no sentido de que ambos precisam de ócio, de se isolar em um espaço e em um tempo entre paredes, aquietar a mente e eliminar os ruídos e os hábitos, para deixar, assim, que as coisas do fundo emerjam. Também no sentido de que ambos levam a estados "transcendentes", no sentido de "deslocados do fluxo ordinário das coisas" (mesmo que dure apenas uma fração de segundos). Também o jogo, pro Huizinga, funciona porque acontece dentro de parênteses no resto da vida.
        
  4. O destaque do humor como maneira rápida de atingir a iluminação. É claro que ele está falando do tipo de humor nonsense que ele praticava enquanto membro e roteirista do Monty Python, que cria conexões inesperadas e, com isso, nos faz olhar as coisas por ângulos novos (que é talvez a ideia de humor mais próxima do nosso conceito de criatividade). É precisamente a estratégia que os mestres budistas da linhagem zen usam com suas historinhas bizarramente sem sentido (ou outras atitudes ainda mais sem sentido, como gritar e bater em discípulos como resposta a uma pergunta), com o objetivo de trazer a iluminação no sentido meditativo. É também o que fazem os discordianos (que se definem como "zen para ocidentais"), como neste meu exemplo preferido. Há pelo menos um textinho do Rubem Alves ("Koan", no livro sobre a Escola da Ponte) que defende que o método budista deveria ser estendido a toda educação formal (porque, como ele diz, a educação tem que servir para "deseducar", porque só desaprendendo se aprende algo de verdade).
        
  5. A técnica de ficar saltando entre coisas completamente sem sentido até parar em algo que faz sentido de um jeito novo (a versão psicodélica do método de tentativa-e-erro). Conheço alguns grupos que usam isso ostensivamente em processos criativos (um deles um grupo de que faço parte, o CCD). É interessante que ele opõe isso ao pensamento lógico ordenado – modo em que, ao contrário do que ele parece insinuar, nem os cientistas (como ilustrado bem pelos inúmeros exemplos do Lakatos e do Feyerabend) nem os matemáticos (que usualmente operam no terceiro estágio) operam para criar. A necessidade de passos seguros tem mais a ver com o modo fechado de operar, ou ainda com um terceiro momento, o de arrumar a casa (transformar o resultado de um brainstorm em algo limpinho que se possa exibir e usar).

Poser

Eu estava por aqui ouvindo minha nova banda brasileira preferida, Mohandas. Em particular, a música "Saudade do Pará". Como definiu um dos integrantes, trata-se de um tipo de saudade de algo que não se viveu. De fato, todos os integrantes são cariocas da gema, de classe média e, aparentemente, sem nenhuma relação familiar mais direta com o Norte do Brasil.

Eu também não tenho qualquer relação mais direta com a cultura do Pará, e para ser sincero sempre achei bem bregas (ha!) as músicas de lá – mais do que não me identificar, me desidentifico com elas. Mas a música do Mohandas mudou isso, me fez enxergar um tipo de beleza poética que eu nunca tinha visto, porque ficava escondida por trás de uma nuvem de estranheza que me afastava daquilo. Mas agora que vejo, começo a gostar também das músicas realmente paraenses, aquelas mesmas estranhas. E é assim que me torno um poser de forró.

O mesmo acontece por aí com tribos de punks, etc., ou, para ficar no mesmo contexto, dos jovenzinhos sambistas da Zona Sul do Rio (dentre os quais eu parcialmente me incluo). Aponta-se comumente que esses jovens "não sabem o que é samba", nunca subiram num morro (dos antigos, porque muita gente não sabe, mas nos morros de hoje não se faz mais samba, se faz funk), nunca foram malandros duros e sem dinheiro mas que davam qualquer coisa por uma bunda rebolando ou uma dose de cachaça (uma imagem um tanto romantizada, porque eu também não faço ideia do que era ser um malandro). Mas há algo no samba que os inspira, que os leva até ele, algo que foi peneirado e mediado, por uma tradição que talvez tenha começado com a bossa nova (que fez um samba mais leve, com harmonias mais complicadas, mais fácil de difundir através de outras camadas e grupos sociais). Tom e Chico não eram exatamente meninos de morro, afinal. Mas assim, com pessoas vivendo entre dois mundos, houve mediação, houve uma ponte entre dois mundos, houve troca e inspiração através.

Houve a formação dos posers de samba, aqueles que nunca viveram nada parecido com a realidade da qual aquelas músicas emergiam, que no entanto se inspiravam por alguma coisa ali, que não necessariamente entendiam, mas que fazia algum sentido diferente quando projetado no outro mundo. E que cultivaram essa coisa, referindo-se às raízes mas fazendo algo muito diferente e, ao mesmo tempo, herdeiro, cultuante, reavivador daquilo que era de outro. Algo assim bem estranho, como o tango na Finlândia.

Num mundo cheio de incomensurabilidades, é reconfortante saber que a mediação é possível, que as pessoas, sendo posers, são capazes de criar.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Três estágios da Matemática


As pessoas têm três níveis de contato com a Matemática ou, temporalmente falando, elas aprendem matemática passando por três estágios. O blog do Terence Tao as chama, de forma sem graça, de pré-formal, formal e pós-formal. O Elon Lages Lima, em um artiguinho legal*, chama de conceituação, manipulação e aplicação. Eu os descreveria assim:

1. Uso intuitivo

Existe um nível em que as ideias matemáticas são usadas sem muita preocupação, de forma informal e ligada a conceitos bastante intuitivos. É o que acontece quando dividimos a conta de um restaurante ou jogamos algum jogo de estratégia (como xadrez). Essa fase é bastante trivial e sua demonstração é deixada para o leitor.

2. Formalismo

O movimento do uso costuma trazer, algum tempo depois, o movimento da teorização.  É assim que, ao longo da escola, um aluno vai sendo crescentemente apresentado a conceitos formais e a relações de necessidade lógica, de forma que as noções intuitivas vão se tornando mais organizadas, inter-relacionadas e cheias de consequências. Esse momento inclui a parte formal da Conceituação (que, em boa parte, é motivada pelos conceitos intuitivos) e também a Manipulação, o domínio operacional do formalismo.

Na vida escolar, nenhuma matéria representa melhor a formalização e a necessidade de manipulação que a álgebra. Para um estudante de matemática, ciências naturais ou engenharia,  o ápice da formalização costuma acontecer nos cursos de Análise na Reta, que é quando, pela primeira vez nos cursos regulares, parte-se apenas de conceitos muito elementares (conjuntos e sequências) e constrói-se, seguindo apenas passos dedutivos, um belo edifício (os números, as funções, as derivadas e integrais). É também onde ganham uma importância muito clara as demonstrações e a necessidade de cada conceito ter uma compreensão estritamente formal. Pode-se argumentar que esse é o modo, por excelência, de organização da matemática. É bonito, elegante, e quase todo texto matemático é escrito dessa forma dedutiva.

Quase todo mundo que passou pela escola enxerga, em algum grau, a a matemática como um corpo de conhecimento formal. Mas a maioria não acha isso particularmente bonito. A principal razão para isso é, provavelmente, o foco excessivo, no ensino formal, na  manipulação (como denunciado pelo famoso Lamento de Lockhart). Basta lembrar dos inúmeros exercícios com equações, polinômios e matrizes que aterrorizam estudantes de ensino médio, ou do vazio existencial dos cálculos de integrais de funções absolutamente irrelevantes nos primeiros semestres da faculdade.

A manipulação é parte essencial do aprendizado de matemática, disciplina em que funciona exatamente como na música ou nos esportes. Quando se aprende a tocar um instrumento musical, por exemplo, é necessário passar por inúmeros exercícios repetitivos, solfejos, escalas e outros mais, até que os passos elementares tenham se automatizado e, com isso, saiam do foco dos pensamentos, permitindo que novas ideias apareçam e que se possa concentrar no essencial.  Só muito depois dos torturantes exercícios iniciais é que você pode começar a treinar as músicas de suas bandas preferidas. Assim, por paradoxal que possa parecer, o treino repetitivo é exatamente o que se torna libertador.

Ao contrário da música, entretanto, o próximo estágio da matemática não costuma aparecer nos horizontes das pessoas. Afinal, música é muito mais inserida na cultura geral que a matemática (no melhor estilo das duas culturas do C. P. Snow). Além disso, o foco do ensino na manipulação acaba ocultando o que viria depois. Depois de anos de exercícios repetitivos sem nenhuma recompensa, as pessoas começam a acreditar que a matemática é árida e sem alma, bom para computadores mas ruim para seres humanos. Por outro lado, há quem veja as manipulações como algo sem alma de fato, mas divertido, bom para passar o tempo. Esse é um dos bons motivos para se ensinar matemática muito cedo na escola, na época em que as crianças aceitam brincar com qualquer brinquedo novo (de fato, é a idade em que as crianças aceitam aprender a tabuada, as conjugações verbais e um monte de outros pacotes de memorização bruta). É também um motivo pelo qual aprender um instrumento ou uma língua nova é mais fácil quando se é criança.

3. Pós-formal / Aplicação

O terceiro nível é aquele para o qual o formalismo existe: alimentar e enriquecer as ideias. Enquanto o segundo nível traz ordem e exatidão, o terceiro se reencontra com a criatividade e a imaginação. De fato, o uso intuitivo (primeiro nível) nada mais é que um nível pós-formal de um formalismo que se aprendeu parcialmente mas já se esqueceu (o simples ato de fazer uma conta em um bar envolve conhecimentos aritméticos aprendidos duramente durante os primeiros anos escolares, que se tornaram "informais").

Esse nível é chamado pelo Elon de "aplicação". Essa aplicação não deve ser pensada apenas no sentido das "ciências aplicadas"; ele inclui, de fato, aplicações em situações do mundo real (exigindo a habilidade adicional da modelagem: capturar características essenciais de um fenômeno complexo, para descrevê-lo formalmente e extrair consequências dedutíveis), mas refere-se principalmente à aplicação dos conceitos e do formalismo aos problemas de matemática.

Os problemas de matemática, no sentido "puro" do termo, existem desde muito tempo e são tão tradicionais quanto difundidos. Os pitagóricos da Grécia Antiga se divertiam com eles, os japoneses penduravam plaquinhas de madeira com problemas de matemática na porta dos templos. Resolver problemas é uma atividade divertida, criativa e cheia de imaginação, como pode atestar qualquer estudante que já tenha participado de uma olimpíada de matemática.

Muitos matemáticos concordam que o que há de mais importante na matemática são as ideias. De fato, a parte importante do trabalho de um matemático é ter insights e construir coisas novas. Trata-se de um trabalho criativo, não de um processo enfadonho de ficar seguindo passos lógicos. Talvez seja por isso que, como Lockhart defende, a geometria devesse ocupar lugar proeminente no ensino de matemática: por exigir pouca manipulação abstrata e recorrer sempre à concretude das pistas visuais, ela evidencia mais as ideias e a beleza por trás do formal.

E no entanto o formalismo (ou melhor, as estruturas) é o que caracteriza boa parte da beleza da matemática. Contudo, ao contrário do que se pode pensar ao se ter uma aula de lógica aristotélica, o formalismo não participa como um guia para o pensamento; em vez disso, funciona como uma "resistência", um conjunto de dificuldades que o matemático precisa enfrentar ("essa ideia é boa, agora vamos ver se ela funciona") para dar a suas ideias toda sua plenitude. De fato, partes importantes de uma ideia nascem no processo de formalização da mesma -- como o "por que" delas, isto é, as relações precisas e detalhadas da ideia com suas antecessoras, ou o lugar dela no grande edifício do qual ela faz parte.

Algo parecido acontece com as ciências naturais. Há algum tempo, os epistemólogos concordam que os cientistas não fazem ciência seguindo qualquer tipo de "método científico" (retome-se o sentido original de 'método' como 'caminho'); os experimentos não são guias, mas uma resistência às ideias, um tipo de restrição auto-imposta que, como nos jogos, impede soluções fáceis e, por isso mesmo, estimula a criação de ideias melhores.

A situação é diferente no que tange à apresentação das ideias, que lembra a distinção clássica de Imre Lákatos entre "contexto de descoberta" e "contexto de apresentação": ao apresentar suas ideias, o cientista costuma apresentar sua teoria de forma ordenada, lógica, e como se fosse uma consequência natural de experimentos. Da mesma forma que os matemáticos apresentam suas ideias de forma dedutiva e completamente formal. Faz sentido: como todo designer sabe, apresentar ideias traz necessidades especiais (quando quero aprender uma ideia nova, não quero saber todo o caminho tortuoso que levou alguém a formulá-la); lido inocentemente, contudo, isso esconde um tesouro criativo que só quem já resolveu problemas abstratos sabe do que se trata.

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* "Conceituação, manipulação, aplicações", do livro "Matemática e Ensino", Elon Lages Lima. Sociedade Brasileira de Matemática, 2001.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Ferramentas, máquinas e aparatos eletrônicos

Comecei a ler um filósofo tcheco, Vilém Flusser, tido como um dos poucos filósofos a abordar o lugar do designer no mundo dos homens. No livro que eu estou lendo ("O Mundo Codificado", ed. Cosac Naify), que na verdade é uma coleção de mini-artigos, há uma porção de ideias interessantes. Uma delas é uma divisão da história da relação entre o homem e as coisas em quatro fases:

Na primeira, há a exploração do mundo com a "mão nua",  quando o homem explora, de forma direta e imediata, o mundo externo a si. Trata-se de uma construção teórica já que, como o próprio livro menciona, as ferramentas existem há mais tempo que o homo sapiens sapiens.

A segunda é a das ferramentas, que funcionam como uma extensão e próteses das mãos. As informações herdadas se tornam cada vez menos relevantes que as aprendidas. O contato com o mundo passa a ser mediado (o homem cerca-se de suas ferramentas, e de cultura) e as coisas passam a ser cada vez menos colhidas e mais construídas.

A terceira é a das máquinas. É claro que a transição entre as fases é suave e não é possível classificar rigidamente os objetos. Mas uma máquina arquetípica é diferente de uma ferramenta arquetípica em alguns sentidos importantes:

(i) as ferramentas são construídas empiricamente, a partir de um conhecimento razoavelmente direto de como funcionam os materiais e que trabalho precisa ser realizado sobre eles. As máquinas, por outro lado, são construidas por teorias de como as coisas funcionam. A era das Máquinas é, portanto, a era da Ciência Moderna (leia-se, da física, especialmente da mecânica). E, da mesma forma que a ciência existe para a tecnologia (embora possua seu grau de existência autônoma), a filosofia existe para a sociedade e a cultura (embora possua seu grau de existência autonoma). Na era das ferramentas, as filosofias eram ontologias, ou perguntas sobre a natureza do mundo (e a natureza do homem, com sua cultura, nesse mundo). A ontologia é, digamos, uma ferramenta para compreender o mundo. Já na época moderna das máquinas, a Filosofia Moderna ganhou uma inovadora fixação pela epistemologia, ou pela compreensão sobre a compreensão do mundo, ou sobre o conhecimento – mais especificamente, sobre as teorias científicas, essas máquinas de produção de ideias que produzem máquinas.

(ii) as máquinas são melhor vistas não como próteses, mas como autômatos: corpos que imitam os corpos humanos. Corpos mais fortes, duráveis e eficazes (em tarefas específicas) que os humanos. De fato, fizeram sucesso em algum momento do século XVIII francês pequenos autômatos que imitavam movimentos humanos diversos, funcionando apenas com roldanas, alavancas e outros aparatos puramente mecânicos. Um desses pequenos avatares de orgulho dos iluministas, os grandes otimistas desse potencial construtivo da capacidade teórica. Mas são apenas corpos, sem alma, que precisam da iniciativa humana para funcionar.

(iii) justamente por serem filhos grandes e caros (nos dois sentidos) do mundo da teoria, as máquinas tomaram do homem o centro da organização social. Antes um homem trabalhava com várias ferramentas, carregando-as para onde ele necessitava delas. No começo do fim da era das máquinas, elas se assentavam em algum lugar favorável (nas fábricas) e carregava vários seres humanos consigo, formando as cidades industriais. Nas fábricas, os seres humanos passaram a ser peças mais descartáveis, enquanto os mesmos humanos eram o centro vital das oficinas em que o artesão trabalhava com suas ferramentas. Isso chegou ao nível de os seres humanos serem recrutados para trabalharem como máquinas (imitando seu imitador), como peças de trabalho repetitivo em uma linha de produção. Tudo muito estranho e degradante, do ponto de vista da condição humana. Ou, citando diretamente o autor: "A segunda Revolução Industrial expulsou o homem de sua cultura, assim como a priemira o expulsou da natureza, e pro isso podemos considerar as fábricas mecanizadas uma espécie de manicômio".

Mas as coisas felizmente tomam outra cara na quarta fase, a dos aparatos eletrônicos.  Novamente, a transição é sempre suave. Aparatos eletrônicos podem ser vistas como máquinas em que operadores fazem movimentos que geram nos aparatos outros movimentos (mesmo que microscópicos, se enxergarmos os elétrons sob uma perspectiva realista). Mas esses movimentos são, em geral, indiretos: o que se quer não é o resultado mecânico da cadeia de movimentos, mas a emergência de padrões abstratos desses movimentos. Essas novas máquinas imitam mais o interior do que o exterior dos humanos: as máquinas ganham alma, e conversamos com elas usando linguagens, programando-as para tarefas específicas, fazendo perguntas e obtendo respostas. Mesmo as máquinas cujo fim é gerar movimento (digamos, uma impressora) faz isso mediada por uma alma desse tipo, obedecendo a um "imprima" dito em alguma linguagem que a máquina entenda.

O arquétipo aqui são as máquinas com muita alma e pouco corpo (digamos, computadores). Como é próprio do mundo das ideias, elas em geral não são especializadas, mas multitarefas (tão mais multitarefas quanto mais "cheias de alma" – compare o computador com um relógio de pulso). Isso libera os humanos da escravidão das máquinas monótonas. Ou, se quiser: os computadores podem, como os humanos com corpo e alma, usar ferramentas para tarefas específicas, como imprimir.

Os aparatos liberam os homens também das máquinas grandes: como os movimentos deste tipo de objeto interessam indiretamente, através de abstrações que eles representem, não há qualquer necessidade especifica de meio, modo ou escala para eles. Em particular, os movimentos de elétrons foram uma maneira particularmente compacta e maleável de fazê-lo. Assim, os aparatos eletrônicos podem ser pequenos e portáteis, como as ferramentas um dia foram, liberando-nos para criarmos, como antes, nossa própria geografia e nosso próprio ritmo.

Nessa era, a cátedra das ciências passou a ser ocupada, naturalmente, pelas ciências cognitiva, herdeira da biologia e da linguística das antigas gerações – liberando a física para especulações mais obscuras e recônditas, terras para onde se dirigiram também as antigas ontologias, no início da época das máquinas. Não é à toa que se dê o nome de "redes neurais" para os aparatos eletrônicos espertos o suficiente para aprender e ter alguma autonomia espiritual. Mas o que fará a filosofia da era dos aparatos eletrônicos é algo menos claro; as teorias são incrivelmente mais importantes para construir os aparatos, mas a filosofia desconstruída não as leva mais tão a sério. Com o que se preocupará então?

domingo, 2 de dezembro de 2012

Linguagem

Linguagem foi algo inventado para conectar-se com espíritos, isto é, com aquilo que não é alcançavel pelos sentidos. É claro que a linguagem usa os sentidos, não haveria outra maneira; usa-os, contudo, apenas como via. As palavras, ou partículas de uma linguagem, servem como carros que vestem as palavras no frio do mundo exterior (sim, as pessoas se vestem com carros) e as transportam por aí.

Os espíritos, aqui, incluem os computadores. Mas para amenizar o incômodo que essa frase sugere, digo logo que objetos, computadores, seres etc. podem ser ordenados pelo quanto eles resistem à vontade alheia (ou seja, por quão autônomos eles são). A maioria dos computadores pessoais resiste muito pouco, fazendo basicamente o que mandamos (é claro que, com computadores e com pessoas, a falta de domínio da linguagem do outro é, por si, uma resistência enorme). Mas há computadores muito mais autônomos (essa coisa que chamam, em computação, de "redes neurais") e também há cachorros autônomos e seres humanos, sobretudo. Mas seres humanos não são testados tanto pela sua resistência à vontade de outros seres humanos, mas porque não testamos tanto; consideramos que Autonomia é um valor fundamental das relações humanas e, por isso, evitamos forçar a barra. Mas o passado (e as ravinas da sociedade presente) tem algumas histórias tristes sobre isso.

A matéria também tem graus diferentes de resistência à vontade. As ferramentas, como os animais domésticos, são versões significativamente mais irresistentes delas. Mas toda a matéria tem resistência, o que explica o esforço que fazemos contra ela. Em um campo um pouco diferente, aparece sob o mesmo conceito: a "resistência"  que ela oferece, através dos experimentos, à livre teorização nas ciências naturais (Galison). 




Arquitetura de ideias

Quatro anos  depois, eu queria dialogar com o post das minhas auto-identidades.

Em primeiro lugar, me considero um homem das ideias. Viver com as ideias me traz mais felicidade do que viver com as coisas ou viver com as pessoas (embora haja muitas ideias na convivência com as pessoas e com as coisas – na medida em que isso me estimula às interações sociais, eu me sinto um vampiro).Sou, como alguns copacabanenses que conheço, um protótipo do que se pode imaginar que fossem os idealistas alemães do século XIX. Não exatamente isso, porque os idealistas alemães já foram. Eles já tiveram a chance de organizar o mundo dos homens, que é o que expõe suas fraquezas, faz nascer as suas críticas, e leva a novas ordenações. Como um cidadão do XXI, não pude, responsavelmente, ser imune às críticas ao idealismo: a pluralidade, os relativismos e os sentidos.

Mas os sentidos. A vida sensorial sempre foi para mim muito atraente, bem mais que a vida verbal. Com as palavras, tenho alguma relação de amor e ódio (a ser possivelmente explorada em próximos posts). Mas eu diria que a vida sensorial me interessa principalmente em três sentidos:

  • Na medida em que os estímulos sensoriais geram novas ideias e, algumas vezes (raramente), novas sentenças. 
  • Como uma consequência de algumas séries de ideias, que apontam (mas, claro, não presentificam) para os sentidos como forma fundamental de perceber o mundo. Aqui dá pra citar a minha genealogia *: historicismo, existencialismo, hermenêutica e após: Heiddeger, Gadamer e Gumbrecht.  
  • Como uma forma de equilibrar a vida com as ideias e torná-la mais, bem, possível de viver. É o que herdei do taoísmo, de seus filhos e seus primos distantes (tai chi chuan, yoga, etc.): com isso, o espírito pode sair do turbilhão laranja de ideias e fluir para a ponta dos dedos. Ou, se preferir, a mente e as ideias se tornarem difusas pelo corpo. Isso impede que a cabeça, esse grande ringue ou bordel de ideias, exploda. Ok, mas mais que isso: faz elas interagirem com uma riqueza nova e especial (objeto de futuros posts).
Em particular, as ideias (e essas interferências da variedade dos sentidos) me leva a ter uma relação especial com as ideias de ordem e caos. Principalmente a fronteira entre elas, as travessias de um para outro. No mundo das ideias, meu passatempo preferido é a arquitetura de ideias: como juntá-las e construir com elas. Construir castelos de areia, que o vento leva e você refaz de outro jeito. É o que se faz (ou o que se faria, mas...) na vida intelectual acadêmica. 

Ênfase na areia. Eu não sou um homem da ordem (qualquer um que tenha passado mais de 15 minutos comigo sabe disso :P). Não sou como os meus colegas da matemática, uma das minhas fontes de formação. Eu sempre disse que, se matemática é poesia, eu sou um linguista. Porque eu sou um homem da ordem parcial. Gosto de ter nas mãos o que eu não posso segurar, gosto de pegar isso e moldar. Ou, conversamente, ver onde o seguro, sutilmente, transborda: chupar o caos dos poros da ordem (é o que me motiva aos temas de tradições intelectuais alternativas/ outsiders, superposições de ordens de épocas diferentes na sociedade ou no tecido urbano, e diversas outras formas de olhar a desordem, sempre existente mas às vezes bem escondida, nas bordas dos sistemas ordenados). Os matemáticos viajam e constroem ao longo dos reinos da ordem. Mas sem o peso do que não pode ser abraçado, não tem graça pra mim. A verdade é essa: matemática me deixa entediado. 

(É um pouco por isso que a física como vida intelectual deixou de ser uma opção para mim, no longínquo passado. No início, construir castelos de ideias usando dados experimentais como vigas foi uma ideia promissora. Mas os físicos são, hoje, muito mais chatos do que já foram. E presunçosos. E não muito tolerantes.) 

A ordem parcial foi também o que me atraiu de volta para a linguística, através da via olímpica. Um problema de linguística é, essencialmente, uma maneira aberta de se construir ordens parciais para agrupar dados linguísticos de muitas cores e texturas. Uma fonte ilimitada de prazer e diversão, e que pode ser reconciliada com meu interesse linguístico mais antigo: a tubulação dos prédios da arquitetura de ideias é a arquitetura dos conceitos (e, em particular, dos pedaços de semântica). 

Classicamente, isso me faria ir parar na filosofia? Provavelmente na filosofia natural. Mas outra escola me comprou, e minha linhagem foi feita em outro lugar: na história das ideias. Culpa dos supra- e antecitados historicismo (as limitações do tempo), existencialismo (as limitações da existência particular e contingente) e hermenêutica (as limitações das linguagens, as públicas e as mentais). E do taoísmo e da pós-hermenêutica, com as limitações do corpo, da matéria e do que se presentifica.



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* É interessante que, como pode parecer, em alguns cenários intelectuais (como o da historiografia francesa)  as pessoas preferem se agrupar sincronicamente em "gerações" que se suscedem (Annales, Nova História, Nova Nova História, etc. – algo que, quatro anos atrás, eu gostava de chamar de "Síndrome de Revolução Francesa") e em outros (como o das humanidades na Alemanha), elas preferem um agrupamento diacrônico [não gosto dessa palavra], em "linhagens"  que coexistem ao longo do tempo (e procuram traçar seus pais, avós, bisavós, etc. da vida intelectual).

Ressurectio

Quatro anos depois, resolvi ressuscitar este blog. Em um novo momento de estabilidade na vida, relaxo um pouco no que estou fazendo, ou tenho feito, e começo a me reencontrar, ou reencontrar quem eu quero ser. Esses pedaços com os quais eu esbarro, fragmentos de ideias, que podem chocar boas construções, precisam ser depositados em algum lugar. Um blog é interessante para isso, porque será uma casa no grande campo das ideias, que outras pessoas eventualmente podem achar, e chocar suas próprias construções.

Talvez eu ressuscite também o blog roxo, o gêmeo poético deste.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Modelo-Padrão do Rael

Eu não entendo muito bem o Rael. Ele tem sensibilidade, isso é um ponto. Mas um ponto bem superficial. E ele implica com todo mundo, mas isso é bem irrelevante pra uma reflexão sobre o Rael. E ele incorpora o AUSHREMMA.

Mas ele é implicante com música, muito. E eu to tentando entender o gosto musical dele faz tempo. Ele diz que só gosta de ouvir o que parece carregado por sentimentos legítimos (eu era assim também, na verdade ele é uma versão de mim há cinco anos atrás), o que faz algum sentido, mas algo me diz que o conceito de sentimento legítimo dele é estranho e mais limitado que isso (ele nao usa muitas palavras nem é obcecado por precisão), por exemplo porque ele não ouve musicas muito aceleradas (é por isso que ele vive no ritmo musical dos anos 60/70) nem muito lentas (por isso ele nao gosta do Movimento Islandes - eu ouço os extremos que cercam o que ele ouve, em termos de frequencia de vibração, huhuuh. Mas hoje eu descobri três albuns que tanto eu quanto ele gostamos muito (curiosamente um do Radiohead e dois da Björk) e isso é um ponto de partida pra novas reflexões a respeito. Eu queria escrever logo esse parágrafo pra dizer que desde que inventei esse blog to pra escrever textos sobre o monte de reflexões conjunstas sobre musica que eu e ele temos, mas acabei nunca fazendo isso. Ele nao ajuda também, ele nao é muito afeito a reflexões muito teóricas, hehehe.

O Rael acabou de me dizer que sempre me achou verborrágico =/ Verborrágico como um filósofo. O Rael é contido como um poeta. Aliás, ele escreve poesias e as publica num blog, mas eu nao vou fazer propaganda de um blog aqui, especialmente um blog de poesias, blergh!

O Rael diz que tudo o que rima tem que ser verdade (aqui), e eu acho que acredito nisso (é ótimo estabelecer expicitamente critérios estéticos pra validar a crença das coisas) (é nessa hora que ele entra e diz que eu to estragando a frase bonita dele com um monte de dissecações teóricas).

Fato é que nessas coisas todas e em outras ele tem sido um bom contraponto (e justamente por causa de uma certa ampla base comum nossa de encarar o mundo). Nas discussões do CCD eu quase sempre tenho sido o Fogo e ele quase sempre tem sido a Terra ("Alguém precisa de um filtro de brainstorms..." R. Erkírion, op. cit.).

O Rael não me pediu esse post. Nem passaria perto dele um fazer algo assim. Mas, ehr, como o post é dele, precisa vir com figura no final.




Corro à luz de Aldebaran, que me protege,
Mas a esfera-Índigo de Cerâmica quebrou-se,
Num estalo, num estrondo, num ínfimo instante,
E de lá caíram todas as luzes do Mundo

[Sinto muito, tive que roubar]

Tolerância

sei lá, tem várias mini-reflexões que eu nem escrevo aqui pq geralmente nao considero dignos de, sozinho, estrelarem um post. Mas acho que é uma boa parar com isso e começar a postar mais idéias soltas e bobas, quase no nivel do afzipi, auehuaheh

Enfim, acho que posso começar mencionando um dos grandes lugares comuns desses tempos (daqueles a que as pessoas se referem tao enfaticamente que espanta notar q nenhuma delas pensou nas suas consequências mais radicais - acho que tem um filtro de razoabilidade (ou uma "miopia de razoabilidade") que em geral faz só filósofos e excêntricos e românticos alemães ficarem levando as coisas às últimas consequencias) sobre tolerância e aceitar as diferenças. O problema é que aceitar todos os pontos de vista, nunca querer que outras pessoas assumam algum outro, é ser inútil prás pessoas, não colaborar em nada pro crescimento delas. O extremo oposto, a completa intolerância, fundamentalismo, e tentativa de converter qualquer um que passe perto ao seu único ponto de vista, é beem mais educativo prás pessoas, mas torna a convivência razoavelmente insuportável.

Claro, como com quase tudo, deve haver um equilíbrio entre as duas posições, ou uma superposição de estados entre elas. Porque, por um lado, é interessante que suas próprias posições defensáveis sejam um tanto quanto amplas (é chato querer convencer as pessoas sempre das mesmas coisas), e por outro, reconhecer posições diferentes é inclusive útil para "converter pessoas aos seus pontos de vista defensáveis" de forma mais eficiente (sendo ainda mais educativo prás pessoas do que o fundamentalismo completo). E de qualquer forma a briga com a intolerância tem talvez mais a ver com uma forma estúpida e cega de convencimento que, mais que não-eficiente, trabalha contra seus próprios propósitos.

Uma interseção entre o conjunto de opiniões que você compreende e o conjunto de opiniões que você quer mudar parece algo bom de se ter, de qualquer forma. Mas uma coisa interessante é uma fronteira que existe para além das posições não-compreendidas e não-toleradas, que eu posso chamar de "fronteira do completamente outro": pessoas tão tão diferentes que atrazem consigo a admissão da completa ignorância sobre aquela disposição e um certo desanimo e uma certa prudência de nem tentar interferir. O que faz pensar, fazendo o caminho inverso, que toda tentativa de convencimento envolve pelo menos um modelo minimamente razoável sobre o estado da outra pessoa que se quer ver mudado.

Pois é, uma idéia solta rendeu três parágrafos médios. Eu to ficando muito verborrágico. Enfim.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Sentidos e Medições

Um outro "primitivismo" desse tipo que me intriga é um que o Jaime sugeriu uma vez, sobre os modos de conhecer a natureza que os cientistas se orgulham de usar. Eles não são nada, nada além de uma versão mais estendida dos nossos sentidos!

Ou bem a gente detecta luz, com bem mais precisão e variedade de cores que os olhos, mas luz, ou tem detectores sensíveis a pressão, como os ouvidos, ou detectores químicos, que geram reações quimicas a partir do contato com qualquer coisa. Olhando assim, isso parece muito limitado! E mostra como os nossos métodos experimentais das ciencias naturais são primitivos, nesse sentido. Se os instrumentos até o século XIV só adicionavam precisão ao que medíamos com os sentidos, os de hoje são só versões estendidas destes.

Quando será que vai aparecer algo diferente? (Certamente não nessa geração, em que as pessoas só tão preocupadas em seguir o bonde e publicar, publicar, publicar... Não conseguiram nem largar o osso da matéria e da energia escura, meu deus! esses cientistas me envergonham, como membro da humanidade, tsc)

Runas

Começar a usar o blog tb pra alguns insights sobre raízes passadas e coisas futuras. É sempre chocante enxergar alguns padrões muito permanentes em grupos humanos em geral, como eles são tão "primitivos" quanto coisas bem antigas (sem críticas), e como talvez seja diferente um dia.

Uma desas coisas é o nosso padrão escrito, o romano, que é essencialmente como o padrão rúnico: conjuntos de traços retos e simples que representam sons específicos, configurações específicas da boca. Uma sequencia de runas representa uma sequencia de sons que deve ser reproduzida rapidamente para carregar significados para as nossas vidas mentais e pra induzir ações no mundo material.

(Quem diria que algum animal ia desenvolver essa técnica muscular avançada de articular e rearticular rapidamente a saída do sistema respiratório pra produzir um padrão bem complexo de sons que carrega um monte de significado. É sempre a primeira coisa q eu penso quando ouço uma conversa em uma língua desconhecida.)

Mas voltando, o nosso padrão escrito ainda é esse! O mesmo, não mudou nada! É verdade que existem infinitas versões estilizadas dessas runas (as diferentes tipografias) pra combinar com coisas diferente e ficar bonitinho, mas isso é só as runas enquanto arte decorativa. Aliás, eu nem chamo isso de linguagem escrita - porque não passa da reprodução escrita do que é a nossa lingua oral. O ocidente só tem língua oral! Mesmo as expressões poéticas são todas assim: poesia é algo para ser declamado - e os concretistas foram os primeiros a fazer algum avanço no sentido oposto. Os chineses sim, eles têm uma linguagem escrita de verdade, com símbolos escritos que carregam idéias, que podem estar associados a diversas linguas orais - ou mesmo a nenhuma.

Mas enfim, será q vamos abandonar esse padrão rúnico de escrita e de comunicação? A partir das ultimas duas décadas, parece cada vez mais claro que os filmes e outras multimídias vieram com grande potencial para competir com os livros como forma de guardar a nossa sabedoria mais erudita (ou como diz a minha mae adotiva das humanidades, os historiadores das novas gerações precisam saber fazer cinema).

No futuro a comunicação não-oral vai ser feita através de bolhas brilhantes e coloridas.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Vida

Viva a concretude irrenunciável da vida! \o/

(tirado de um email espontâneo enviado pro Café Filosófico do CCD).

Em particular, em termos da "igreja" / "congregação" (koinonia, usemos o termo grego) discordiana, isso deve implicar, em primeiro lugar, nada de abstensões. Nada que diminua as cores da vida (é, isso ta bastante ligado ao principio anterior), nada que obrigue a viver menos. Viver o máximo possivel, sempre - e, assim, quando o viver mais implicar deixar de lado certas práticas da vida para viver outras consideradas melhores ou mais intensas, que seja. Mas, como tal, seguindo o principio de irrenunciabilidade da Vida, só faz sentido sendo ato individual. Abstinências como regras coletivas não.

Isso aproxima a coisa também ao Budismo Chan (zen), no sentido de que a vida concreta é a verdadeira iluminação. Algum koan dizendo que Buda é a pedra em que você tropeçou ontem cairia bem aqui, mas to sem paciência de procurar isso agora.

Princípio da Multiplicidade

Tem muita gente interessante fazendo muita coisa interessante por aí.
Ou: buscar sempre as cores locais.
Ou: não acreditar demais nos padrões.
Ou: o melhor dos mundos possíveis é o mais variado.
Ou: (a lei máxima dos românticos): Sê tu mesmo, isto é, sê único!

(Isso funciona também como princípio de trabalho, prás Humanidades; não considerar coletividades nunca como uniformes. Ou: qualquer agrupamento de pessoas incluem sempre opiniões ligeiramente diferentes, e ações ligeiramente diferentes.)

Ou, pra dar ao meu post mais autoridade e poesia alheias, um pouco de Schleiermacher (retirado do capítulo dos romanticos do Lovejoy):

Como posso evitar apenas regozijar-me na novidade e na variedade, que não confirma e não de novas e sempre diferentes maneiras a verdade de que estou de posse? (...) Há ciências sem cujo conhecimento minha visão do mundo nunca será completa. Há ainda muitas formas de humanidade, épocas e povos que não conheço melhor que o homem comum - épocas e povos em cuja natureza e modo de pensar minha imaginação não penetrou de sua maneira própria e que não ocupam nenhum lugar definitivo e próprio deles na minha imagem do desenvolvimento da espécie. Muitas atividades que não têm lugar na minha própria natureza não as compreendo e careço frequentemente de um entendimento própria das relações delas com aquel Todo que mostra sua grandeza e beleza na humanidade como um todo. Desse todo, hei de, parte por parte e parte
com parte, tomar posse; a mais bela expectativa abre-se diante de mim. Quantas naturezas nobres, totalmente diferentes da minha, que a humanidade moldou como elementos de si mesma, vejo ao alcance da mão!
Ou, citando o próprio Lovejoy citando outro: "Eis uma cruel determinação, como Emerson disse de Margaret Fuller, a de comer este enorme universo!"

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Princípio do Improviso

(Aproveitando-me de que isso aqui não é muito frequentado, e pegando carona nesse momento magico de conversão ao Erisianismo, vou usar esse blog aqui pra postar alguns princípios mais genéricos e abstratos meus. Talvez eu funda isso com o Chu Biúnil mais tarde)

Nunca escolha um caminho até que você possa efetivamente andar por ele.